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21 junho 2012

A menina dos fósforos

     A adaptação de contos para o cinema é uma realidade, livros que se transformam em filmes ou até em seriados. Os exemplos são inúmeros. Desde Harry Potter a Crepúsculo, de Godfather a Senhor dos Aneis, das Crônicas de Narnia a Tom Sawyer... No fundo, todos os filmes, seja drama, ação, ou mesmo quadrinhos começam no papel, uns em livros mais famosos, outros nem tanto. E não vou discutir aqui sequer o que acho melhor, se o livro ou o filme.
     Na maioria dos casos, fico-me pelo livro, o original, como lhe chamo. Alice no País das Maravilhas de Tim Burton é para mim um bom exemplo. Apesar de toda a magia e de toda a ambiência própria do realizador, fantástico, sim, o filme ficou muito aquém do livro, muito mesmo. Senhor dos Aneis é outro bom exemplo. Tolkien escrevia muito e, de tanto que escrevia, difícil é transpor para a tela todo seu mundo com todas suas criações e nuances.
     O livro sempre ganha do filme (e penso que nisso todos estarão de acordo), num aspecto: o imaginário. Enquanto que no livro nós criamos e fazemos nossas construções mentais e idealizações, pensamos como será este ou aquele personagem ou este ou aquele cenário com base nas descrições do autor (e como nos entretém fantasiar e reconstruir e imaginar), no filme é-nos dado conhecer a ideia que o realizador/produtor do filme faz desses mesmos cenários e personagens. (ponto para o livro. Lol)

     Mas para quem disse que não discutiria o que é melhor, se livro ou filme, já me alonguei demais.

     Hoje trago o conto "A menina dos fósforos" de Hans Christian Andersen, que encontrei ontem mesmo num outro blog, e uma animação "The Little Matchgirl", que reconheci ser baseada nesse mesmo conto.

     Deixo em primeiro lugar o conto, ele é o início, a origem, e em seguida o curta animado. Do que vocês gostam mais, isso é com vocês.


A menina dos fósforos (de Hans Christian Andersen)
Fazia tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.
Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maçodeles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.
Sentou-se no chão e enrolou-se ao canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.
Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.
E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.
«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»
Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!
— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.
Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços, e soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.
Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.
A Pequena Vendedora de Fósforos (da Disney)

E aí, papel ou película? 
Indistintamente lindo, né?

See you! 

05 abril 2012

A fita vermelha (de Matilde Rosa Araújo)

        Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. Se recordar tudo quanto tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem dado. Mais alegrias do que tristezas.
        Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar.
        Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos.
        A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antes, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.
        O quê? Português, francês. Hoje sei, acima de tudo, o amor da vida.
        Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos.
        Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda. O sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos «eléctricos», dos automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos cavalos que passavam de vez em quando.
        Porque, mais do que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar e a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina – ou antes, a ter a consciência de que a aprendia.
        Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de duzentas) que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.
        Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas confiando em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me ensinavam quanto lhes devia.
        Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens, que me podem julgar. Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim, um erro semelhante para vós mesmos.
Já era quase Primavera. Na rua não havia árvores nem flores. Só os mesmos carros com o seu peso e a violência da sua velocidade. Gritos de vez em quando. Uma Primavera só no ar adivinhada.
        Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora. Morena, de grandes olhos cheios de doçura. Talvez triste. A Aurora estava doente. Num hospital da cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital. Olhei o retratinho dela na caderneta.
        Retratinho de «passe», num sorriso de nevoeiro de uma modesta fotografia. Tão cheia de doçura a Aurora! Doente, do hospital tinha-me mandado saudades.
        — Vou vê-la no próximo domingo — anunciei às companheiras. E tencionava ir vê-la mesmo no próximo domingo.
        Mas o próximo domingo foi cheio de Sol. Sol do próprio astro, quente, luminoso. Igual e diferente, ao mesmo tempo, do sol-sorriso das meninas.
        E eu, a professora, ainda jovem, que gostava do Sol, fui passear. Ver mar? Campos verdes? Flores?
Já nem me lembro. E da Aurora me lembraria se a tivesse ido visitar.
        Começava a Primavera.
        Adiei a visita naquele próximo domingo, para outro dia, para outro próximo domingo.
        Hoje sei que o amor dos outros se não adia.
        Aurora esperou-me toda a tarde de domingo, na sua cama branca, de ferro.
        Tinha posto uma fita vermelha a segurar os cabelos escuros. Esperava-me, esperava a minha visita, cuja promessa as companheiras lhe haviam transmitido.
        Veio a família: mãe, pai, irmãos, amigos, as colegas.
        — Estou à espera da professora…
        No dia seguinte a doença foi mais poderosa que a sua juventude, a sua doçura, a sua esperança.
A cabeça escura, sem a fita vermelha, adormeceu-lhe profundamente na almofada, talvez incómoda, do hospital. Sabemos todos já, amigos, que há vida e morte. Também isso temos de aprender.
        Não fiquem tristes por isso. Vejam como as flores nascem quase transparentes da terra, como as podemos olhar à luz do Sol, e morrem, para de novo nascerem.
        Lembrem-se como de um ovo de pássaro podem sair asas que voem tão alto em dias de Primavera. E morrem, também, e todas as primaveras nascem de novo. E, sobretudo, lembrem-se do coração de cada um de nós, desta força imensa.
        E não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de nós, nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural que se não adia.
        Às vezes até precisamos uns dos outros para dizermos que estamos felizes, contentes. Só para isso. Mesmo felizes precisamos dos outros.

        
        Aurora ensinou-me para sempre esta verdade.
        As lágrimas que por ela chorei já não lhe deram aquela visita do próximo domingo.
        Nem a mim a alegria de a encontrar sorrindo, cheia de doçura, com uma fita vermelha a prender os cabelos escuros. Vermelha de sangue, como a vida. O Sol. Flores vermelhas.
        Aurora era o seu nome. E a sua vida uma manhã apenas que, na minha distracção ou egoísmo, não tive tempo de olhar. Uma manhã com uma fita vermelha. Que lágrima nenhuma pode reflectir.






25 janeiro 2012

Fábula do Homem do Sapato Vermelho


O homem do sapato vermelho
Era bem alto, bem magro,
Torto e mal enjambrado,
Saltava numa perna só
Fazendo uso de um só sapato,
Já meio gasto e apertado,
Um número do dele abaixo.

E coaxava,
Estridente e fastidioso,
Nas margens do grande lago.

Plop! Poc! Pok!

Chapinhava satisfeito
Que nem criança
Em lodosa água,
De planta
Em planta saltando,
E era estranho seu embaraço.
Da outra perna descalça
O diacho do homem não fazia caso.
Fatalidade, dizia,
Carregar perna doente
Até ao fim dos dias,
Perna sem sapato não faz falta.

E a rã Penélope e as amigas,
Trocistas, do invulgar homem riam.
"Parece maluco, se agacha numa pata só
E se julga assim no lucro. 
Parece sapo paraguaio, 
Seu coaxar é falso, coisas do contrabando,
Lhe desse a divina fortuna
Um outro sapato
Lhe endireitava a vida e a coluna."


E assim se deu o caso.
Um dia, num riacho ali do lado
Veio boiando um coturno,
Preto, a modos que pouco usado,
E as rãs, espertas, astutas, 
Atabalhoadas o pescaram.
Era oportunidade tamanha,
Verem-se livres desse chanfrado
Que as atrapalhava no banho.

E em silêncio noturno,
O caçando dormindo o calçaram.
Mas, ai, tamanho!
Quando o homem-sapo acordou
Tamanho foi o grito,
Que não sabendo desapertar cadarço
Toda a santa noite pinchou.

"Ai, danado, que é que é isto?
Minha perna doente
Um tumor doente abriga,
Preto, bem vivo,
Tão medonho
Inté respira."


E assim desesperado 
O pegou o elefante Nuno,
Pela tromba, bem entendido,
E tal foi o balanço
Pra aqui, pra acolá,
Deus nos acuda!
Ao cabo de meia hora
Estava o homem-sapo descalço.
Mas, ó desgraça!,
Dos dois pés todavia.

Se fez longa procura,
Dez noites e dez dias,
Do calçado ninguém deu conta
Nem viv'alma sabia.
Apareceu só um dia
Um cadarço lá pra longínquas bandas
E do fantasma das pernas tortas
Tempos depois chegou notícia:
"Quem quiser sapato vermelho
Me acompanhe ao outro mundo."


Oh, Deus, assim dito, assim feito.
Diabo do homem-sapo
Comprou a dita passagem
E torto, se arrastando,
Duas pernas doentes não ajudando,
Se foi uma madrugada
Lá pros lados do tinhoso
Nem rindo nem coaxando.

Lá das trevas
Não chegou resposta nem mandada,
Notícia nenhuma trouxeram as auroras
Nem as aves migratórias.
E em bom abono da verdade
Já ninguém do fulano lembrava,
Homem-sapo não deixou saudade.

Mas eis que aos noventa dias
De viagem, o sapo-homem
Deu um ar da sua graça,
Entrou rua adentro pulando,
Dois pés calçados
Com vermelhos sapatos,
E longo, longo atrelado,
Sapato de todo o gosto,
Cores diversas e diversos feitios...
Oh, eram aos mil!,
Ninguém ficaria a ver navios.


Fez todo o povo seu gosto.
Calçaram elegantes descalços pés,
"Oh, são lindos, são lindos,
Não sei nem como sem eles vivia
E fossem eles de outra cor, garanto,
Já não os quereria."
E são essas comuns falas,
Diálogos comuns na pobre terra,
Que por todo lado se espalham
Antes mesmo de à noite
Todos coaxarem no lago.





20 janeiro 2012

Os ovos da pata Luísa

     Luísa era uma pata nova. Marreca. Muito linda e bem cuidada. De penas mais brancas que a neve e bico laranja, mais laranja que as laranjas das laranjeiras. Era muito simpática e a todos cumprimentava com um alegre “Quac, quac, quac”. Estivesse frio ou calor a disposição dela era a mesma. Era a pata mais alegre na eira da tia Eulália. E tinha um amor. Um amor grande e bonito como ela. Era apaixonada pelo pato Inácio, atrevido e malandro, muito, muito namoradeiro. Mas amor a ela ele jurava.

     E o pato emendou. E de tão emendado que estava um dia lhe disse:

     - Quero casar contigo, Luísa.

     Ganhou coragem e foi fazer o pedido aos pais dela.

     - Quac, quac, quac!- gritou Rogério, o pai da pata Luísa, nervoso. Sabia das malandragens do pretendente.

     Mas uns minutos depois (muito tempo!), a esposa o convenceu a conceder a mão da filha.

     E Fez-se então o casamento.

     Vieram animais e músicos e palhaços de todas as eiras da freguesia e de todos os cantos da cidade. A tia Eulália, sabedora da cerimônia, providenciou até a presença de um papagaio com falas de padre.

     “Pata Luísa, aceita o pato Inácio como seu legítimo pato-esposo na saúde e na doença?

     Tão contente, a pata Luísa num instante gritou “sim!”

     "Pato Inácio, aceita a pata Luísa como sua legítima pata-esposa e promete amá-la e honrá-la e ajudá-la a cuidar dos vossos filhos marrecos?

     E todos fizeram um silêncio profundo. A fama de Inácio era maior que o mundo. Mas do bico do pato logo saiu um rápido "aceito".

     Trocaram-se as alianças, os noivos deram um beijo e logo começou a comezaina. Foi comida à farta e mais farto ainda foi o champanhe. Quando acabou a festa já era tarde. Tão tarde era que muitos já diziam ser cedo, mas cedo do dia seguinte, claro. E as galinhas já nos seus poleiros cantavam.

     Uns tempos passaram e a pata Luísa pôs quatro ovos. E foi tamanha sua felicidade! Quase chorava só de imaginar os marrequinhos "Quac, mamã, quac, quac". Todo dia e toda a noite ela ficava de olho neles. Oh, tão lindos! E Inácio, muito vaidoso, já a todos gabava os filhos.

     - Oh, meus rapazes serão fortes e corajosos como eu. E serão muito lindos e cobiçados pelas marrequinhas.
     - Oh, vaidosos como o pai serão de certeza. - dizia rindo o pato Rodolfo, seu amigo.





     Mas um dia, a pata Luísa de tão cansada que estava adormeceu. Quando acordou os ovinhos tinham desaparecido. E muito, muito chorou. Ai, que desespero!

     - Inácio! Inácio!- se ouviram seus gritos nos quatro cantos da eira.

     E Inácio de pronto apareceu.

     - Que foi, querida? Que foi?

     - Nossos filhos! Nossos filhos, meu Deus!

     - E como isso aconteceu?

     - Por um momento fechei os olhos...

     - Ai, Luísa! Que falta de responsabilidade!

     - A culpa foi tua que nunca ficaste aqui comigo!

     - Minha?! Que descaramento! Trabalho o dia todo para pôr a comida na mesa e tu ainda dizes isso!... Que castigo!

     - E eu fico aqui presa todo o dia. Não posso nem espairecer a cabeça.

     Oh, meu Deus, foi uma discussão das bravas. Gritavam e choravam. E atiravam as culpas um para o outro. Todos se juntaram ao seu redor e opinavam. Uns diziam "a culpa é da pata que não tomou direito conta dos filhos", outros diziam "a culpa é do pato que não protegeu a esposa e seus marrecos", e em toda a eira estridentes "quac, quac, quac!" se ouviam.
     “Você está errado. O pai nem aqui estava, como pode ser o culpado?"

     "Esse pato não nasceu para casar. Sabe lá o que são responsabilidades!"

     "Alguém os deve ter roubado. Ou os marrecos fugiram sozinhos?"

     "Se fossem meus eu havia de achá-los.”

     Até que chegou a pato-polícia.

     - Mas o que é que aconteceu? - gritou o sargento Patolas.

     "Quac, quac, quac.", "Quac, quac, quac.", "Quac, quac, quac”.

     Todos palraram suas versões. Não dava mesmo para entender. E o pato Inácio e a pata Luísa, zangados, queriam fazer cada um uma ocorrência.

     - Eu é que aqui estava quando aconteceu! - gritava a pata Luísa.

     - Eu é que sou o pai deles! - gritava o pato Inácio.

     - Mas a mãe sou eu, oras!

     - Mas eu é que fui registrá-los! E digas o que disseres os filhos são meus.

     Não houve de forma nenhuma acordo. Eram os dois muito teimosos.

     - Pronto, farão cada um uma ocorrência. - o sargento Patolas assentiu.

     E foi quando os policiais começavam a escrever o que acontecera, que surgiram dentre os outros quatro marrequinhos com a avó Florinda.

     - Já nasceram! - gritou a vovó pata.

     - São lindos! São lindos!- gritaram todos.

     E os pais com os marrecos ralharam:

     - Saíram sem avisar? Não façam mais isso! Não façam mais isso!

     E ai deles que o façam. 


17 janeiro 2012

O cachecol da pomba Petronila (de Ricardo Alberty)

«A  Pomba Petronila acordou estremunhada.

Há um tempo para cá dormia pouco e mal, porque era muito sensível e os vizinhos começavam a arrulhar logo de manhã, naquele pombal novo, de ninhos todos iguais, mandado construir pela Columbófila.

Ainda não se habituara àquele novo modo de vida, porque só há um ano casara com o pombo Aristides e viera para ali morar.

Mas não era só por isso que a pomba Petronila andava nervosa.

Andava nervosa, porque tinha um sonho e ainda não conseguira realizá-lo.

O sonho da pomba Petronila era ter um cachecol, mas um cachecol moderno, de cor clara e de bom pêlo, para sair à rua no Inverno, quando ia de manhã à praça ou passeava à tarde pelo Chiado com as amigas pombas da sua criação.

O dinheiro não chega para nada, mas a pomba Petronila tinha jurado que não passava do Natal sem comprar o seu cachecol.

Por isso saltou logo do ninho, espreguiçou-se, estendeu a pata e começou a vestir-se sem fazer barulho, para não acordar a ninhada de borrachinhos. Tinha quatro. Calçou as meias, atou as fivelas dos sapatos, vestiu um vestido prático, e foi pôr o chapéu ao espelho. Agarrou na gabardina, viu se levava na mala o lenço, o dinheiro e a caixa de pó de arroz, e preparava-se para levantar voo.

− Onde vais Petronila? − perguntou o pombo Aristides, que estava ainda no quente, dando voltas no ninho, um olho fechado, o outro aberto.

− Vou comprar o meu cachecol. Já não é sem tempo, e não passa de hoje. Quero estreá-lo pelo Natal.

− Não pode ser! Bem sabes que temos muita despesa: as prendas para os garotos, a renda da casa, a Festa do Ano Bom. Isto para não falar nas gorgetas ao guarda-nocturno, aos varredores da Câmara e ao pombo-correio.

− Não pode ser? − perguntou muito nervosa a pomba Petronila. − Era o que faltava! Há quanto tempo te ando a falar nisso? Depois de um ano inteiro de trabalho, não havia de ter o meu luxo? Eu, que não gasto um bago de milho mal gasto!

O pombo Aristides não gostava que o contrariassem, e gritou: − Não, não, e não, já disse!

Saltou do ninho em pijama, e dirigiu-se à casa de banho.

A pomba Petronila foi atrás dele e gemeu: − Não foi para isto que eu casei contigo!... É bem certo o ditado: casa de pombos, casa de tombos… E desatou a chorar: − Sou uma escrava, uma pomba sem fel, e agora, enquanto as outras estreiam vestidos e casacos novos, eu hei-de andar para aqui como uma pobre de Cristo? Vai ao Largo do Camões, ao Jardim da Estrela, e pergunta aos outros pombos se tratam assim as pombas deles.

O pombo Aristides, que já estava a fazer a barba, porque tinha de ir para o Ministério, no Terreiro do Paço, voltou-se de repente, fez um lenho no bico, e gritou-lhe fora de si: − Não me irrites!

− Irritar? E a pomba Petronila começou a insultá-lo entre lágrimas: − Pombo mariola! Borracho! Não o tratava assim porque o pombo Aristides pertencesse à raça de pombos mariolas ou porque fosse ainda borracho na idade, mas porque ele, às vezes, voltava ao pombal fora de horas e com um grãozinho na asa.

O pombo Aristides, que tinha um coração de pomba, e não podia ver chorar ninguém, começou a arrulhar em volta da pomba Petronila, fazendo-lhe muitas festas.

− E como era o cachecol que tu querias para estrear pelo Natal? − perguntou.

− Como é que havia de ser? − respondeu a pomba Petronila, limpando uma lágrima à ponta da asa. − De cor clara e de bom pêlo, que é o que está na moda.

− Mas foi justamente assim que eu comprei um anteontem nos Armazéns do Chiado, para te oferecer no dia de Natal, minha pombinha!

− Isso é verdade? − perguntou a pomba Petronila, muito contente.

− Tão verdade como eu chamar-me Aristides.

− Meu pombinho! − exclamou − a pomba Petronila. E, abraçando-se, começaram os dois a arrulhar de satisfação.

Arrulharam, arrulharam, tanto, tanto, que acabaram por acordar os quatro borrachinhos, que de bico aberto, exigiram logo o pequeno-almoço.  

E é que se a pomba Petronila não acode, nunca mais se calavam!...» 

                                                                                                                                  Ricardo Alberty