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11 agosto 2019

Atualização sobre a Bruzundanga



Na Bruzundanga de Lima Barreto assoma por ora, com força, um título honorífico. Não é tão distinto quanto doutor ou bacharel, mas é, aos olhos do povo da Bruzundanga, bastante respeitável, além de que goza de uma abrangência e universalidade de que outros títulos não gozam. Para obtê-lo (ou adquiri-lo), o cidadão da Bruzundanga não dispensa quatro ou cinco anos em um bacharelado ou em um doutoramento (um desperdício de tempo!), bastando apenas o estudo da Palavra, a memorização de dois ou três salmos, entre outros requisitos facilmente preenchidos. O título honorífico de que falo é o título de “homem de bem”, cujas características passo, na medida do possível, a especificar. Recordemos as palavras de Lima Barreto: “A ‘Bruzundanga’ fornece matéria de sobra para livrar-nos, a nós do Brasil, de piores males, pois possui maiores e mais completos”.
1. Requisito precípuo, o “homem de bem” da Bruzundanga é, claro está, um homem. Às mulheres é vedada a obtenção do título por dois motivos: porque são mulheres; e porque não há “mulheres de bem”. O equivalente para o gênero feminino a tão respeitável título é “mulher do lar”. Aqui, vejo-me forçado a destacar uma singularidade: entre as mulheres, é mais dignificante, na Bruzundanga, ser uma “mulher do lar” do que ser doutora ou bacharel. A explicação para tal minha ciência ainda não foi capaz de capturar.
2. O “homem de bem” é casado, via de regra. Na prospecção que fiz, observei que nenhum homem solteiro possui o título, mas não excluo a possibilidade de se encontrar alguma exceção. Entretanto, devo dizer que o fato de todos os “homens de bem” serem casados se deva e demonstre ainda mais a respeitabilidade do título.
3. O “homem de bem” é sempre, invariavelmente, um homem empregado, inserido no mercado de trabalho. Mais do que empregado ou assalariado, o “homem de bem” da Bruzundanga é um trabalhador. Por que é que eu digo que mais do que assalariado o “homem de bem” da Bruzundanga é um trabalhador? Simples. Porque na Bruzundanga há assalariados que não justificam o salário auferido com sua força de trabalho. Isso é frequente, por exemplo, no legislativo. O que não impede que os legisladores da Bruzundanga sejam “homens de bem” (é, na Bruzundanga observam-se alguns paradoxos).
4. O “homem de bem” da Bruzundanga é um homem que paga suas contas. A menos que esse “homem de bem” seja descendente de um milionário, também “homem de bem”, que paga suas contas. Entre as classes altas, o título é uma generalidade. Em um certo sentido, a riqueza funciona como uma espécie de garantia do mesmo. Quero dizer, um homem rico é, inevitavelmente, um “homem de bem”, assim como os filhos e os filhos dos filhos desse homem rico. O título passa de geração para geração infinitamente. Sua perda poderá acontecer apenas em uma situação: em caso de perda da riqueza ou empobrecimento da família. Independentemente do cometimento de algum crime. Crimes de corrupção, por exemplo, não levam à perda do título. O “homem de bem” pode, na Bruzundanga, portanto, ser um corrupto, bastando-lhe, para a garantia do título, ser um homem de posses.
5. O “homem de bem” é cabra macho. Ninguém lhe reconhece qualquer sentimentalismo próprio do gênero feminino. Sua virilidade é, todavia, posta à prova cotidianamente. Por isso, não é de estranhar que possua e porte arma; que, ao menos uma vez no mês, pratique alguma grosseria, inclusive (e principalmente) com sua esposa; e que frequente os mais recônditos prostíbulos, onde pode dar vazão a seus instintos e alardear sua macheza. Não raras vezes, a “mulher do lar” com quem é casado (“homens de bem” vivem em união matrimonial apenas com “mulheres do lar”; não desposam outro tipo de mulher) é sabedora desta última prática, mas sua compreensão é elevada. De fato, devo dizer, a “mulher do lar” é talvez o espécime mais compreensivo da Bruzundanga. É enunciado base de sua oratória algo do tipo: “é homem... homem é fraco...”. A leveza e graciosidade dessa fala são indescritíveis. Não fosse assim e não seria uma “mulher do lar”. Um grande homem, como o são, em geral, os “homens de bem”, necessita ter uma grande companheira a seu lado.
6. O “homem de bem” da Bruzundanga é um saudosista. Queria evitar usar tais termos, mas julgo ser inevitável: o “homem de bem” da Bruzundanga é um homem do passado. Seu apego é tal às memórias de seus pais, avós, tataravós, que lhe garantem que “antes é que era bom”, que, pudesse ele regredir no tempo, já estava para lá da ditadura, desembocando mesmo na monarquia. Isto porque, entre outras coisas, o “homem de bem” da Bruzundanga reconhece a utilidade de um escravo. Muitos deles, não todos, (aqui, meu estudo ainda não chegou a números definitivos), ao refletirem sobre a monarquia da Bruzundanga, ainda terminam em uma exclamação: “acabou e funcionava na perfeição!”.
6b) É forçoso criar esta alínea. Onde leu “ditadura”, você deve ler “democracia de força”. Os “homens de bem” da Bruzundanga são democratas de força, nunca ditadores. Nem agora nem no passado.
7. O “homem de bem” da Bruzundanga é cristão, seja lá o que isso queira dizer. Minhas dificuldades de interpretação dos textos sagrados da Bruzundanga impedem-me de fazer uma observação mais detalhada. Um exemplo dessas minhas dificuldades: onde eu leio “oferecer a outra face”, eles leem “bandido bom é bandido morto”. Não sei se seria o caso de mandar ajeitar os óculos.
8. O “homem de bem” da Bruzundanga é avesso à ciência. Nietzsche dizia que as mulheres experimentavam, diante da ciência, a sensação de que lhes espreitavam para debaixo das saias. Com o “homem de bem” da Bruzundanga acontece o mesmo. A sensação é de que lhes espreitam para dentro das calças. Vá-se lá saber o que eles tanto querem esconder!

[Em atualização]

21 novembro 2018

Poema





Queria mostrar-te o som dos meus dias
A melancolia teimosa, a nostalgia
O não querer mais que não querer
Os passos amarelo-risonhos
Constrangidos, obedientes;
O bem-te-vi rasando minha cabeça
A alegria cadente de estrela
O interior marítimo silente...
Queria mostrar-te o som das velharias
Os sonhos dependurados no alpendre
A turva de fantasias guinchando estridentes
O sol maquinal depondo cada um dos dias...
As agonias, ululantes, resilientes
Os desejos, esquivos e desobedientes...
Queria mostrar-te o som da indiferença
O som das cores – do branco e do negro.
Queria mostrar-te o som das ilusões
Como soam os amores e os apegos...

Lá vai! Oh, lá vai uma vã esperança! Oh, lá vai!
Aí vem! Oh, aí vem uma vã lembrança! Oh, aí vem!
Queria fazer-te ouvi-las, fazer-te vê-las...
Mas eu escrevi (só) um poema.

03 setembro 2018

Semanário

Sofro de um onirismo profundo - os sobressaltos são imensos.
Minha visão, tão subjetiva e tão turva, necessita correção urgente.
De dia, sinto espasmos violentos - quando o real se apresenta.
Na segunda-feira, dois homens se batiam na fila do cinema;
Um homem jogou a mulher da sacada na terça;
Na quarta, metralharam a casa de Pedro - morreu todo mundo -
E todo mundo era inocente;
Na quinta... Ah, na quinta! Na quinta, o discurso de ódio passou na TV
SEM PROBLEMA!
Ivone, por gostar de menina, foi morta na sexta;
No sábado, dois moradores de rua foram assassinados com pedradas na cabeça;
No domingo... Ai, no domingo! No domingo, o espasmo foi mais violento - todo mundo foi à igreja.

19 agosto 2018

Que loucura!

José era apaixonado pela esposa. Completamente, dizem. E por amor fazia qualquer loucura.

- Amor, você faria tudo por mim?
- Tudo! Tudinho, querida...

Ela tossiu.

- Sério?
- Claro! O que é que eu não faria por você?

Seguiu-se um breve silêncio. Ela afagou o peito dele.

- Sei lá... Não sei se devo falar.
- O quê? Fale!

Ela hesitou um pouco.

- Eu acho que estou gostando mais de mulher...

O mundo dele podia ter acabado ali. Não acabou. Fazia qualquer loucura.

- Você está querendo que eu?...
- Não, não... Mas se você quiser...Eu quero que você queira. Não quero que faça só por mim.

José fez. Por que não? Os amigos disseram que podia se arrepender, que não era algo fácil de decidir, que talvez estivesse na hora de deixar Manuela pra lá... Mas os amigos erravam o mais das vezes.

- Oi.
- Oi.
- Nossa, José!
- Josefa. - corrigiu.
- Como você ficou diferente!
- Gostou?

A resposta não foi imediata. Ela ajeitou-se na cadeira, olhou "Josefa" de alto a baixo...

- Gostei...
- Nossa! Esse "gostei" não foi nada convincente, não.
- Gostei. Que mais quer que eu diga?
- Podia elogiar meu batom, falar do meu salto, dizer como meu peito tá tão durinho, bonitinho...
- Ah! Sei lá, José...
- Josefa.
- Sei lá... Não estou acostumada... Desculpa... Não sei o que falar.

Manuela era volúvel. Incerta. Variável. Sofria de uma ligeira (?) bipolaridade.

- Sabe o que é, José?
- Josefa, porra!
- Sabe o que é, Josefa? Não estou conseguindo abstrair, não. Estou sempre lembrando quem você era... Não estou conseguindo... E...
- E o quê?
- Acho que eu estava enganada... Acho que eu preferia você do jeito que você era. Eu não disse sempre que gostava de você do jeito que você era? Não disse? Pra que é que você foi fazer isso?

Brigaram. Manuela descobriu que gostava de José e odiava Josefa. Josefa descobriu que não queria mais ser José. Que loucura!


20 julho 2018

Que horror!

Horrores há que não confesso - são horríveis.
Tão horríveis são que sinto horror de os sentir.
Horroroso é como me sinto só de senti-los emergir.
Podia ter horrores menos próprios, menos horrores, menos horríveis
dos quais pudesse contar e rir,
mas deu a meus horrores de ser horrores
bem horrorizantes e horrorosos
que à força de tanto horrorizarem - a mim, logo a mim! -
maior horror adivinho vir.
Ai que horror horrível horroroso horrorizante!
Quem em seu juízo horrível teve a horrível ideia de o parir?
O "outro" ergue orgulhosamente a horrenda voz
de timbre grave horroroso:
- Fui eu!
É horrível, mas só um pensamento me vem:
Vai pra puta que pariu!