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24 abril 2017

A pesca (retextualização de "A pesca", de Affonso Romano de Sant´Anna)

É tarde. Devem ser catorze horas. O Sol corre na sua curva descendente. O homem, de feições duras e tristes, solitário, permanece estático, os olhos perdidos no azul da água, os lábios retorcidos, paciente. No que pensará ele?
Ao seu lado, firme na areia, uma vara tão fria quanto ele, tão resoluta, decidida - ao mesmo tempo, tão sem vida. Vida - esse sopro que anima, que exalta e pulula dentro das gentes.
O anzol é igual. Fechado, quieto, introspetivo. A agulha, cinza, elegante, altiva. O que quererão eles?
A água marulha, leve, suave, divina. Espuma. O tempo é resumido, estático, congelado. O dia, perfeito. O silêncio, absoluto, total, inquebrável. Mas, de repente, o puxão, o arranco, o rasgo. De repente, acelerado, sôfrego, aterrorizado, coração bate e não bate... De repente, o outro mundo, o contato, o segundo, a morte. De repente, "pela boca morre o peixe". Agora entendo. E é tarde.




22 abril 2017

Todas as palavras são de amor

Nossas primeiras palavras são de amor.
São de amor todas as palavras.
Não apenas as primeiras.
Mas a primeira palavra...
A primeira palavra da criança,
Titubeante, imprecisa, é de amor:
Papai, mamãe...
É de amor todo o esforço, toda a vontade,
A semântica.
Ela quer dizer: “eu te amo”.
Todas as palavras são de amor.
Não apenas as primeiras.
Às vezes, só não sei dizer “eu te amo”.
Mas a primeira palavra, a mais remota,
Nascida nos primórdios, atirada, rudimentar,
A segunda e a terceira, a quinquagésima e a milenar,
Ainda que de roupas outras, foram de amor.
São de amor todas as palavras.
Às vezes, só não sei dizer “eu te amo”.
Às vezes, é teu ouvido duro, teimoso,
Que não para para escutar.
Por trás de palavras outras, eu disse “eu te amo”.
“Eu te amo” é a única coisa que eu falo.


04 janeiro 2017

A toupeira



Seus meninos são lindos,
São, sim – sim, são – são, sim...
Cada um do jeito seu.
Já eu...
Disse a toupeira,
Olhe pra mim,
Não há ninguém que queira;
Esse caritó não tem fim.

Sem pescoço e sem orelhas,
Pouco enxergando além,
Dizem todos, sou feia,
E me tratam com desdém.

Seus meninos não.
Seus meninos são lindos.
Sim, são – são, sim – sim, são.
A eles não tem quem negue
Qualquer uma pretensão.
Peçam a mão que quiserem,
Não se perde a ocasião.

A toupeira, carente,
De solidão achacada,
Prosseguiu mal ciente
Do receptor aí pra nada.

Pretendente inté que tive,
Mas levei nenhum a sério –
Querubim, Filinto, Orestes –
Eu de todos nenhum quero.

Meus pretendentes são feios,
São, sim – sim, são – são, sim...
A eles não tem quem queira,
Como não querem a mim.
Pudesse eu!...
Ai, eu pudera
Casava com um de seus filhinhos!...
Pudesse eu!...
Ai, eu pudera
Casava com um de seus filhinhos!...

Tardou um tanto, dizem,
Do outro lado a emissão,
E o tanto que tardou
Trouxe um tanto de não.

Meus meninos são lindos,
Sim, são – são, sim – sim, são.
Qualquer deles bom marido,
Mas pra toupeira não.
Só depois de falecidos
(seja longe a ocasião),
Os meus meninos lindos,
Viverão embaixo do chão.

Meus meninos são lindos,
São, sim – sim, são – são, sim!
E não é você, toupeira,
Que vai tirá-los de mim.
Sim, são – são, sim – sim, são!
Desculpe minhas maneiras,
Mas minha resposta é não.

São pouco usuais meus modos,
Até talvez um pouco tolos,
Mas diga-me, querida toupeira,
Que emprego tem você?
Querida toupeira, me diga,
A menina é graduada em quê?

Não houve então porfia,
Pois a toupeira silenciou.
Virou costas, abriu um rasgo,
Na terra se afundou.
Seus meninos são lindos,
São, sim – sim, são – são, sim...
Ainda um tanto pensou;
Mas eu é que não quero
Uma sogra dessas pra mim.

No fim, nunca casou
A toupeira desse conto,
Embora cantassem alguns:
É linda essa toupeira
É, sim – sim, é – é, sim,
Mas pra mim não tem olhos,
Não tem olhos pra mim.


16 dezembro 2016

Do amor




Poucas coisas, ou de poucas, saberei melhor, ou tanto, quanto sei de amor. E não, não é preciso coragem a bastante para o afirmar, basta alguma vez ter sido amante e das loucuras que se faz e imagina fazer-se pelo bem-amado alguma vez haver sido possuído. Isso é quanto baste para que em amor o homem se faça entendido, na medida do possível, pois que em amor todo o entendimento é mísero e volúvel. É essa miserabilidade, contudo, profícua, rica, também favorável às mais doidivanas elucubrações de que um homem necessita para passar as mortas horas dos dias e tomar ciência da sua existência.
            Ademais, o amor coloca-nos diante de quadros por outras artes inimagináveis, diante daquele lapso de tempo e espaço em que o homem cogita desistir de tudo, abandonar-se, largar-se, o suicídio. Recordemos que um “homem que não encontrou na vida um motivo para perdê-la é um homem pobre, porque isso significa que ele não encontrou sentido em sua vida”, como diz o provérbio árabe. Ora o amor é, não raras vezes, a origem desse sentido, o para que se vive e se respira, o para que se acorda, levanta, caminha, pula, ri, chora. Sim, o amor é essencial nas nossas vidas, mas isso não me faz ainda concordar com Luc Ferry quando diz que este “substituiu pouco a pouco todos os princípios fornecedores de sentido, todas as outras fontes de legitimação de nossos mais profundos ideais”. Compreendo sua fala, mas faço uma ressalva: o amor não vem substituindo, ou se impondo, o amor é o principal princípio orientador das vidas humanas desde os primórdios.


O excerto acima integra a introdução de meu novo livro, "Do amor", disponível no formato ebook na Amazon. No livro, são destacadas as visões de grandes autores (Camões, Drummond, Stendhal, Manuel Bandeira, Neruda) sobre o amor. Não deixe de acessar e deixar sua opinião. Para acessar, clique aqui.  



Abraço!