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04 janeiro 2017

A toupeira



Seus meninos são lindos,
São, sim – sim, são – são, sim...
Cada um do jeito seu.
Já eu...
Disse a toupeira,
Olhe pra mim,
Não há ninguém que queira;
Esse caritó não tem fim.

Sem pescoço e sem orelhas,
Pouco enxergando além,
Dizem todos, sou feia,
E me tratam com desdém.

Seus meninos não.
Seus meninos são lindos.
Sim, são – são, sim – sim, são.
A eles não tem quem negue
Qualquer uma pretensão.
Peçam a mão que quiserem,
Não se perde a ocasião.

A toupeira, carente,
De solidão achacada,
Prosseguiu mal ciente
Do receptor aí pra nada.

Pretendente inté que tive,
Mas levei nenhum a sério –
Querubim, Filinto, Orestes –
Eu de todos nenhum quero.

Meus pretendentes são feios,
São, sim – sim, são – são, sim...
A eles não tem quem queira,
Como não querem a mim.
Pudesse eu!...
Ai, eu pudera
Casava com um de seus filhinhos!...
Pudesse eu!...
Ai, eu pudera
Casava com um de seus filhinhos!...

Tardou um tanto, dizem,
Do outro lado a emissão,
E o tanto que tardou
Trouxe um tanto de não.

Meus meninos são lindos,
Sim, são – são, sim – sim, são.
Qualquer deles bom marido,
Mas pra toupeira não.
Só depois de falecidos
(seja longe a ocasião),
Os meus meninos lindos,
Viverão embaixo do chão.

Meus meninos são lindos,
São, sim – sim, são – são, sim!
E não é você, toupeira,
Que vai tirá-los de mim.
Sim, são – são, sim – sim, são!
Desculpe minhas maneiras,
Mas minha resposta é não.

São pouco usuais meus modos,
Até talvez um pouco tolos,
Mas diga-me, querida toupeira,
Que emprego tem você?
Querida toupeira, me diga,
A menina é graduada em quê?

Não houve então porfia,
Pois a toupeira silenciou.
Virou costas, abriu um rasgo,
Na terra se afundou.
Seus meninos são lindos,
São, sim – sim, são – são, sim...
Ainda um tanto pensou;
Mas eu é que não quero
Uma sogra dessas pra mim.

No fim, nunca casou
A toupeira desse conto,
Embora cantassem alguns:
É linda essa toupeira
É, sim – sim, é – é, sim,
Mas pra mim não tem olhos,
Não tem olhos pra mim.


16 dezembro 2016

Do amor




Poucas coisas, ou de poucas, saberei melhor, ou tanto, quanto sei de amor. E não, não é preciso coragem a bastante para o afirmar, basta alguma vez ter sido amante e das loucuras que se faz e imagina fazer-se pelo bem-amado alguma vez haver sido possuído. Isso é quanto baste para que em amor o homem se faça entendido, na medida do possível, pois que em amor todo o entendimento é mísero e volúvel. É essa miserabilidade, contudo, profícua, rica, também favorável às mais doidivanas elucubrações de que um homem necessita para passar as mortas horas dos dias e tomar ciência da sua existência.
            Ademais, o amor coloca-nos diante de quadros por outras artes inimagináveis, diante daquele lapso de tempo e espaço em que o homem cogita desistir de tudo, abandonar-se, largar-se, o suicídio. Recordemos que um “homem que não encontrou na vida um motivo para perdê-la é um homem pobre, porque isso significa que ele não encontrou sentido em sua vida”, como diz o provérbio árabe. Ora o amor é, não raras vezes, a origem desse sentido, o para que se vive e se respira, o para que se acorda, levanta, caminha, pula, ri, chora. Sim, o amor é essencial nas nossas vidas, mas isso não me faz ainda concordar com Luc Ferry quando diz que este “substituiu pouco a pouco todos os princípios fornecedores de sentido, todas as outras fontes de legitimação de nossos mais profundos ideais”. Compreendo sua fala, mas faço uma ressalva: o amor não vem substituindo, ou se impondo, o amor é o principal princípio orientador das vidas humanas desde os primórdios.


O excerto acima integra a introdução de meu novo livro, "Do amor", disponível no formato ebook na Amazon. No livro, são destacadas as visões de grandes autores (Camões, Drummond, Stendhal, Manuel Bandeira, Neruda) sobre o amor. Não deixe de acessar e deixar sua opinião. Para acessar, clique aqui.  



Abraço!