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21 novembro 2018

Poema





Queria mostrar-te o som dos meus dias
A melancolia teimosa, a nostalgia
O não querer mais que não querer
Os passos amarelo-risonhos
Constrangidos, obedientes;
O bem-te-vi rasando minha cabeça
A alegria cadente de estrela
O interior marítimo silente...
Queria mostrar-te o som das velharias
Os sonhos dependurados no alpendre
A turva de fantasias guinchando estridentes
O sol maquinal depondo cada um dos dias...
As agonias, ululantes, resilientes
Os desejos, esquivos e desobedientes...
Queria mostrar-te o som da indiferença
O som das cores – do branco e do negro.
Queria mostrar-te o som das ilusões
Como soam os amores e os apegos...

Lá vai! Oh, lá vai uma vã esperança! Oh, lá vai!
Aí vem! Oh, aí vem uma vã lembrança! Oh, aí vem!
Queria fazer-te ouvi-las, fazer-te vê-las...
Mas eu escrevi (só) um poema.

03 setembro 2018

Semanário

Sofro de um onirismo profundo - os sobressaltos são imensos.
Minha visão, tão subjetiva e tão turva, necessita correção urgente.
De dia, sinto espasmos violentos - quando o real se apresenta.
Na segunda-feira, dois homens se batiam na fila do cinema;
Um homem jogou a mulher da sacada na terça;
Na quarta, metralharam a casa de Pedro - morreu todo mundo -
E todo mundo era inocente;
Na quinta... Ah, na quinta! Na quinta, o discurso de ódio passou na TV
SEM PROBLEMA!
Ivone, por gostar de menina, foi morta na sexta;
No sábado, dois moradores de rua foram assassinados com pedradas na cabeça;
No domingo... Ai, no domingo! No domingo, o espasmo foi mais violento - todo mundo foi à igreja.

19 agosto 2018

Que loucura!

José era apaixonado pela esposa. Completamente, dizem. E por amor fazia qualquer loucura.

- Amor, você faria tudo por mim?
- Tudo! Tudinho, querida...

Ela tossiu.

- Sério?
- Claro! O que é que eu não faria por você?

Seguiu-se um breve silêncio. Ela afagou o peito dele.

- Sei lá... Não sei se devo falar.
- O quê? Fale!

Ela hesitou um pouco.

- Eu acho que estou gostando mais de mulher...

O mundo dele podia ter acabado ali. Não acabou. Fazia qualquer loucura.

- Você está querendo que eu?...
- Não, não... Mas se você quiser...Eu quero que você queira. Não quero que faça só por mim.

José fez. Por que não? Os amigos disseram que podia se arrepender, que não era algo fácil de decidir, que talvez estivesse na hora de deixar Manuela pra lá... Mas os amigos erravam o mais das vezes.

- Oi.
- Oi.
- Nossa, José!
- Josefa. - corrigiu.
- Como você ficou diferente!
- Gostou?

A resposta não foi imediata. Ela ajeitou-se na cadeira, olhou "Josefa" de alto a baixo...

- Gostei...
- Nossa! Esse "gostei" não foi nada convincente, não.
- Gostei. Que mais quer que eu diga?
- Podia elogiar meu batom, falar do meu salto, dizer como meu peito tá tão durinho, bonitinho...
- Ah! Sei lá, José...
- Josefa.
- Sei lá... Não estou acostumada... Desculpa... Não sei o que falar.

Manuela era volúvel. Incerta. Variável. Sofria de uma ligeira (?) bipolaridade.

- Sabe o que é, José?
- Josefa, porra!
- Sabe o que é, Josefa? Não estou conseguindo abstrair, não. Estou sempre lembrando quem você era... Não estou conseguindo... E...
- E o quê?
- Acho que eu estava enganada... Acho que eu preferia você do jeito que você era. Eu não disse sempre que gostava de você do jeito que você era? Não disse? Pra que é que você foi fazer isso?

Brigaram. Manuela descobriu que gostava de José e odiava Josefa. Josefa descobriu que não queria mais ser José. Que loucura!


20 julho 2018

Que horror!

Horrores há que não confesso - são horríveis.
Tão horríveis são que sinto horror de os sentir.
Horroroso é como me sinto só de senti-los emergir.
Podia ter horrores menos próprios, menos horrores, menos horríveis
dos quais pudesse contar e rir,
mas deu a meus horrores de ser horrores
bem horrorizantes e horrorosos
que à força de tanto horrorizarem - a mim, logo a mim! -
maior horror adivinho vir.
Ai que horror horrível horroroso horrorizante!
Quem em seu juízo horrível teve a horrível ideia de o parir?
O "outro" ergue orgulhosamente a horrenda voz
de timbre grave horroroso:
- Fui eu!
É horrível, mas só um pensamento me vem:
Vai pra puta que pariu!

13 novembro 2017

Rio de Janeiro



Doeu-me a dor alheia,
Que me dela alhear não pude...
Tão fraco fui e me fizera,
Tomado todo da miséria 
Achada nos outros amiúde.
A cidade, pois, contrastante,
Se erguia garbosa de bela,
Os filhos, tantos!, depostos sobre a terra,
Gordos pretéritos, esquálidos avante...
Não vivem, repousam; não teimam, cedem. 
Convenceu-os o pó, o pó, o pó de onde vieram.
Iríeis para onde, irmãos? Não vedes? Olhai-vos!
Aqui sois vós, tão completa e exatamente,
Tão vós, tão assomo de tudo, tão partícula do nada.
Aqui podeis ser o que sois, como sois,
Até o por que sois
A vida que vos foi dada.
Quando quiserdes ser livres, deitai-vos,
Não na alcofa macia e perfumada; 
Deitai-vos sobre o negrume dos dias,
A cabeça pendendo da calçada, 
Ébrios, turvos, doidos e difusos,
Parindo novas palavras.
Que sentido esse que queríeis!
Que definições e conjecturas buscáveis!
Não creio, não posso, não devo nunca crer.
Vós que conheceis o frio, o tolher dos ossos
O mirrar onírico, não tendes como ceder. 
Abaixo do solo e do verme, só uma miséria: nascer.
Mas como censurar-vos o destino, a teimosia em ser?
Como censurar-vos a vida que teimastes? - nada vos foi dado escolher.
Cai-vos sobre os ombros torcidos o sumário desprezo. 
Os outros são grandes - todos eles! - e vós, pequenos. 
Os outros têm sonhos que os levam a passear - 
Aos domingos.
(À semana não - têm que trabalhar. 
Se os sonhos não trabalhassem, como seria sonhar?)
Os outros têm esperanças. De todas as cores. Não apenas verdes. 
E sopram, e enchem-nas, puxam, repuxam, contorcem-nas, 
Até que um dia rebentam, nos ares e nas paredes. 
Esperanças morrem cedo. Jovens. E são de muita estima.
Não fossem elas, não sei que seria desses gigantes nem das suas vidas. 
Os outros possuem medos - ou estes é que os possuem - 
E fecham-nos em sótãos apertados, fazem segredo. 
Os medos são horríveis - o melhor é escondê-los.
Vós, pequenas criaturas, não tendes sonhos; 
Os que tivestes foi antigamente.
Fatalidade: foram atropelados pelo bonde.
Esperanças? Ficam no final da rua.
Uma e outra vos espreitam, uma e outra se escondem.
Vós, pequenas criaturas, não tendes sequer medos. 
Que medos havíeis de ter? 
Vós, pequenas criaturas, é que sois os medos desses gigantes.