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21 novembro 2013

Minha memória



     “E os caracoizinhos, os teus caracoizinhos dourados, em cachinhos, bem enroladinhos?... Tão lindo! Parecias um anjinho... Deitavas embaixo da mesa do avô, almofada gasta, encardida- era a tua almofada, só querias aquela- uma mão esforçada segurando o biberão, a outra mexendo os cachos, enrolando, enrolando...” “Está bem, mãe, está bem. Pára um pouquinho!” Ela obedece, sua cara fecha, o sorriso desaparece. Que chatice! Ele cresceu! Que chatice!... Imagino eu tais emoções, sentimentos lhe perpassando a mente, legendas gordas, comic sans, como um boom enchendo a tela de seus pensares. Sigo para o quarto, ligo a televisão, zapping, nervoso miudinho... Não lembro. Não me recordo de mim. E me angustia que nem de mim dê fé. Irritam-me as lembranças dos outros. E me constrange não me saber nos meus viveres, os tempos vagos e não documentados.
          As fotos são de somenos, flashes, momentâneas- mesmo a que me visto de príncipe encarnado, orgulhoso e sobranceiro. As fotos são os olhos do outro, os de uma câmara, fria, limitada, insensível; os de um fotógrafo, ora contratado, aborrecido, “sorria”, ora de um familiar ou amigo, “Oh, fechaste os olhos outra vez”.  Entenda, por favor, eu queria ver-me! De fora. De fora para dentro. Como um estranho.
         Pego a cassete de vídeo guardada na gaveta inferior do criado-mudo, “João, aniversário de 13 anos”, rebobino com o indicador ansioso, grito, “Mãe, onde está o leitor de vídeo? Mãe!”. Minha mãe vem vagarosa, calma, inocente, “Não sei. Acho que está arrumado na garagem. Acho que já nem funciona.”. Exaspero, revolvo tudo- cómoda, guarda-roupa, quarto, sala, garagem, casa- e o máximo que me é dado encontrar: o cabo scart.
          Minha memória, tão minha, não é senão dos outros- nunca me vi. Minha memória, tão minha, não é senão nos outros, encéfalo e retina. E se acaso eles me viram.