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17 janeiro 2012

A Flor (de Almada Negreiros)

     Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
     Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção , outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
     Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.
     Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
     Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!


Almada Negreiros



10 janeiro 2012

Primavera (de Almada Negreiros)

O sol vai esmolando os campos com bodos de oiro.
A pastorinha aquecida vai de corrida a mendigar a sombra do chorão corcunda, poeta romântico que tem paixão pla fonte.
Espreita os campos, e os campos despovoados dão-lhe licença para ficar nua. Que leves arrepios ao refrescar-se nas águas! Depois foi de vez, meteu-se no tanque e foi espojar-se na relva, a secar-se ao sol. Mas o vento, que vinha de lá das Azenhas-do-Mar, trazia pecados consigo. Sentiu desejos de dar um beijo no filho do Senhor Morgado. E lembrou-se logo do beijo da horta no dia da feira. Fechou os olhos a cegar-se do mau pensamento, mas foi lembrar-se do próprio Senhor Morgado à meia-noite ao entrar na adega. Abanou a fronte para Ihe fugir o pecado, mas foi dar consigo na sacristia a deixar o Senhor Prior a beijar-lhe a mão, e depois a testa... porque Deus é bom e perdoa tudo... e depois as faces e depois a boca e depois... fugiu... Não devia ter fugido... E agora o moleiro, lá no arraial, bailando com ela e sem querer, coitado, foi ter ao moinho ainda a bailar com ela. E lembra-se ainda — sentada na grande arca, e mãos alheias a desapertarem-Ihe as ligas e o corpete, enquanto ouve a história triste do moinho com cinquenta malfeitores... Quer lembrar-se mais, que seja pecado! quer mais recordações do moinho, mas não encontra mais.
Ah! e o boieiro quando, a guiar a junta, topou com ela e Ihe perguntou se vira por acaso uma borboleta branca, a voar a muito, uma borboleta muito bonita! Que não, que não tinha visto; mas o boieiro desconfiado foi procurando sempre, e até mesmo por debaixo dos vestidos.

Como desejava poder ir com todos!

Não sabe o que sente dentro de si que a importuna de bem-estar.

Teria a borboleta branca fugido para dentro dela?

                                                          Almada Negreiros