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05 dezembro 2012

Heartstrings (de Rhiannon Evans)

        Heartstrings, 3:08, é um curta animado de Rhiannon Evans, 2009. Simbólico e adorável, é um stop-motion lindíssimo. E comovente.

"Falling in love only lasts as long as a piece of string."



Para assistir clique aqui.

03 dezembro 2012

Uma carta de amor

Faz tempo que não escrevo "Cartas a Dolores", algo que, confesso, me deu um gozo enorme iniciar e aonde pretendo voltar. Tenho, por assim dizer, o objetivo de aí voltar e seguir com as vidas de Francisco e Dolores. Até onde o coração me levar. Mas, enquanto não dou novo fôlego a esse meu intento, deixo aqui um trecho de "Cartas a Sandra", de Vergílio Ferreira, que Vera, minha irmã afectiva, me deu a conhecer e que achei de uma beleza sem par. Pena que ainda não encontrei aqui em terras de Vera Cruz um exemplar do mesmo, sempre presente na minha Wish List. Mas vem aí o Natal. Quem sabe...

Cartas a Sandra
(retirado do blog SOS LEITORES)

Sandra. Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. E todavia é nessa eternidade que a tua memória me perturba e a imagem terna do teu encantamento. Deves talvez lembrar-te de que nunca me escreveste. Mas eu escrevi-te algumas vezes quando vinha a férias e a emoção era demais. E um dia perguntei-te se tinhas guardado essas cartas. Tu olhaste-me com o teu sorriso breve e repreensivo. Rasguei-as, naturalmente, disseste, e porque havia de guardá-las? Gostava de as reler, de as ter, disse eu. Para recuperar o que fui nelas e o que houve nelas de ti. Que tolice, disseste ainda, a adolescência passou.
E, no entanto, nesta casa vazia e enorme, no silêncio da Terra que me aturde, é essa adolescência que regressa, e com ela a tua fala séria e  doce. Escrever-te. Possivelmente irei fazê-lo mais vezes até ver se no escrever se me esgota a tua fascinação. Tenho algumas fotografias tuas, mas o que procuro nelas não está lá. E é decerto por isso que raramente volto a vê-las. Porque tu nunca foste real para eu te poder amar. E é essa irrealidade amada que estremece na minha comoção e no êxtase leve de te imaginar. Podia no entanto lembrar-te em tanta situação da vida que nos coube. No dia em que a Xana nasceu. Numa praia iluminada do Sul. na noite em que conheci a ternura do teu corpo. Na tarde em que me disseste sim, podemos experimentar. Nos intervalos da nossa monotonia que também houve. No difícil da vida para ela se cumprir toda. Na tua morte. Escrever-te. Escrever-te. Talvez te  conte do muito que não contei e tu me não digas que tolice. Mas por sobre tudo o que poderia lembrar, há uma imagem obsessiva de ti e é a que sempre se me levanta ao incerto da evocação. Na realidade nunca te esqueço no dia a dia que te esquece. Mas ficas um pouco ao lado, à espera de que eu volte de novo a olhar-te. É uma imagem fluida e intensa, essa que se me ergue sempre, e eu penso que possivelmente é a de quando te vi pela primera vez. Mesmo que não fosse a primeira e que estivesse então distraído do meu amor que passava em ti. Eu estava sentado com outros colegas num murete do jardim da Faculdade.. E a certa altura tu irrompeste de algures, do impossível, talvez afinal da tua casa que eu soube mais tarde que ficava ao pé. E o que se fixou na lembrançae imediatamente me aparece ao vaguear da evocação foi o movimento em filigrana da tua anca subtil, o aéreo do teu passar no teu equlíbrio frágil, a tua face doce e triste. E então imobilizo-te antes de a aragem te levar, para te ver bem.E assim te fixo a coxa fina, suavemente modelada pelo teu vestido, o pé à frente, firme e delicado. Verdadeiramente não sei bem o que o tempo me filtrou. É Outono, está sol, e há ainda no ar uma memória de Verão. É assim possível que tragas um vestido leve, provavelmente com o teu casaco solto de xadrez que te descia um pouco abaixo do joelho. Mas não e dá jeito lembrar-te assim.  Talvez porque o teu vestuário flutuante não deixe traçar a modulação do teu corpo. E eu sinto-a ainda no lineamento do teu passar. Trarás por isso talvez um casaco justo, escuro e comprido, para existir sob ele o teu ondeado gentil. Mas quero dizer-te que ao lembrar-te não és só tu a existires. Há a cidade solar que te envolve e eu vejo sem a ver quando vens à minha lembrança. E kmais alto, como um esplendor, o eco de uma balada. E tudo isso és tu, minha querida. A tua intocável beleza, e o espaço e a melodia em que ela se inscreve. (...) 
A tarde apaga-se lenta, a Deolinda deve estar a vir aquecer-me o jantar. E eu suspendo a obsessão de te dizer todo o maravilhoso de ti, antes de te imaginar a breve ruga na face e ouvir-te dizer que tolice. Não digas. Se te sentasses aqui à braseira. E se te demorasses comigo um pouco e olhássemos em silêncio a grande noite que desce. Em silêncio. Não te dizer mais nada. E tomar-te apenas a tua mão franzina na minha. E sorrires.

Paulo

        
        Para saber mais sobre o livro, acesse este link.


28 novembro 2012

Sidecar Transmissions (de Aquarium Drunkard)

        Pra quem curte uma boa mixtape, deixo aqui a dica de Sidecar Transmissions do blog Aquarium Drunkard, um dos melhores blogs de música do planeta.

         Você pode seguir as transmissões via ITunes ou subscrever o feed RSS do blog. É muito massa!










         Clique nos links abaixo das imagens. Irá direto para o blog Aquarium Drunkard onde poderá ouvir estas mixtapes, fazer download das mesmas e ver muitas outras dicas de música. E, se quiser, diga-me de qual mixtape mais gostou. Eu tenho uma preferida.






24 agosto 2012

Setenta!

Coisa tola, isso nunca vai acontecer, mas se eu pudesse ser um personagem de quadrinhos, eu escolheria ser... Imaginem: o Zé! O carioca. Sim, preguiçoso, astuto, enrolão, caloteiro... Não que eu seja nada disso. E não que eu queira estar completando setenta anos. Ui, isso é muito.

O fato é que foi com o Zé que aprendi a ler. Obrigado, madrinha.


        E você, que personagem de quadrinhos gostaria de ser?


09 agosto 2012

Coisa de macho


        9 de agosto, 67 anos depois de Nagasaki, atrocidade, evitável, lembro de Calvin brincando de guerra com Haroldo, coisa de macho, né?, pistola de água, silêncio, às suas posições, soldado!, ui!, e num repente um jato nos atinge o rosto, nos cega num reflexo, caímos lenta e teatralmente, morremos... Mas era água!, era água, era água, Calvin, e diz-me, não deviam ser assim todas as guerras?



07 agosto 2012

Quando os trabalhadores perderem a paciência...

        Não sei, mas penso se tratar de um tempo ainda distante, esse em que os trabalhadores perderão a paciência, em simultâneo. Até lá, ficamos com manifestações teatrais como a da Brava Companhia de São Paulo, em tudo satíricas e necessárias, sobretudo, ao despertar de consciências.
        A metáfora, a bolha de aço invísivel pairando sobre nossas cabeças, ocupada pelo poder, acertadamente denominado de capital, é excelente. A encenação é dura, cínica, corrosiva. Bem conseguida. Falta perder a paciência.

        Abaixo um ligeiro trecho da apresentação de "Este lado para cima: isto não é um espetáculo", gravado na noite do dia 4, frente ao Teatro Alberto Maranhão, Natal-RN.


Desculpem a má qualidade da imagem. Foi gravado com um celular Sony Ericsson, câmera de 2 MP.

        A apresentação da Brava Companhia gira em torno do poema de Mauro Iasi, Quando os trabalhadores perderem a paciência...

As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de mãos dadas ao entardecer
A vida será livre e não haverá concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As pessoas farão coisas de maior pertinência
Mas só quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Mas só quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Mas só quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça 
Nem juízes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a merda da paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obsolescência
Diremos em coro e bem alto:
"Declaramos vaga a presidência!"
                                                             (adaptado por Brava Companhia)


        Utópico? Que nada! Em outro tempo, quem sabe? O Zeca já começou despedindo seu patrão... É só seguir a mesma linha. 


"ele roubava o que eu mais valia"





03 agosto 2012

Era pra ser Bonfim

        Sabe aquela vontade, depois de uma semana de trabalho, de sair, aliviar a cabeça e o estresse e você, ainda por cima, descobre uma peça de teatro na cidade, gratuita, entrada livre, resolve colocar os pés ao caminho, meter os pés no beco, eita, que lá vamos nós, ônibus meio vago, domingo de noite é assim, meia dúzia de passos no escuro depois que descemos na parada, oooooooooooh, o quê?, lotado?, não vou poder assistir?, tem fila de espera, talvez alguém desista, se desistir... Vamos torcer, torcer, torcer, ufa, foi por pouco, mas conseguimos, no fundo, no fundo, os últimos lugares juntos, uns trocam de lugar, se acomodam, diminui a luz, baixa, baixa, baixa mais um pouquinho, escuro, vixe, não era pra parar esse burburinho?, oxente, vai ser assim a peça toda, levanta braço, coloca boné, se recosta na esquerda, se recosta na direita, faz piada, emenda as falas do Fábio, pooooorra!, puta sorte que eu tenho, você entendeu?, cheguei naquele ponto em que pensei, preferia que a porra do teatro fosse pago, aposto que esse pessoal não teria vindo, aliás, por que vieram?
        No palco, Fábio Vidal, na pele de Seu Bonfim, incorporava um velho nordestino, amante de cana, ora lutando contra as muriçocas, ora simulando que se masturba, falando com bonecos de barro, contando histórias que vão se interligando, emendando umas nas outras, nos despertando aqui e ali um sorriso vigoroso, no meu caso, em outros uma gargalhada grosseira, durante cerca de uma hora, e a perua do banco da frente repetia que nem arara, e dá-lhe uma, e vão duas, e vão três, quatro, dias, semanas, meses, blá, blá, blá e o pobre, coitado, na canoa no meio do rio. Se foder, mala sem alça!
        Mas, no fim das contas, gostei do menino, do menininho, o menor, o menorzinho, o caçula...




        Abaixo deixo o conto "A terceira margem do rio" de Guimarães Rosa, no qual se baseia a dramaturgia, contado por Dôra Guimarães. E mais abaixo ainda, o texto.



A Terceira Margem do Rio (Guimarães Rosa)


        Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

        Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

        Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

        Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

        Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

        No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.

        Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.

        A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

        Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

        Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.

        Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.

        Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

        Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

        Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

        Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.




14 julho 2012

O pior analfabeto (de Bertold Brecht)


O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
Nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha,
Do aluguel, do sapato e do remédio
Dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
É tão burro que se orgulha
E estufa o peito dizendo
Que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,
Da sua ignorância política
Nasce a prostituta, o menor abandonado,
E o pior de todos os bandidos,
Que é o político vigarista,
Pilantra, corrupto e lacaio
Das empresas nacionais e multinacionais.




07 julho 2012

A mulher mais linda da cidade (de Charles Bukowski)

        Antes de domingo passado nunca havia lido Bukowski. Sério. Eu sei, falha minha, como é que isso é possível, que falta terrível, blá, blá, blá, blá, blá, blá. Também sou muito crítico.
        E até agora não li muito. Li "A mulher mais linda da cidade e outras histórias" e comecei a ler "Numa fria". De todos, houve uns dois ou três de que mais gostei. Entre eles o tal da mulher mais linda, o do kid foguete no matadouro e o "você aconselharia alguém a ser escritor?".
        Não sendo um crítico literário, tampouco um entendido em Bukowski, digo apenas ter ficado às vezes agradado, às vezes maravilhado com a sua escrita. Até porque o velho Buk tem tudo pra me poder cativar. Sou um defensor, apologista, fã, como quiserem, dos relatos que nos aproximam e nos revelam o cotidiano, das crônicas meio corriqueiras e banais dos episódios da nossa vida. Embora a vida de Buk não seja banal. Longe de mim tal afirmação. Tampouco seja corriqueira.
        O segredo de Buk é a simplicidade, a falta de pudor. Ele diz o que quer, escreve o que quer, pensa o que quer. E tem a coragem de o mostrar, assim como tem a coragem de nos mostrar como piores somos, como mais feios, porcos ou ridículos possamos parecer. Bukowski retrata as coisas como elas são. Cínico, desistente, absurdo... Sim, é absurdo pensar que alguém queira que quebre uma asa do avião em que viaja, como ele afirma em "você aconselharia alguém a ser escritor?", mas, e é aí que tá todo o encanto do velho Buk, ele diz, ele fala, escreve, não temendo parecer ridículo, alguns dos pensamentos mais bestas que nos tomam a cabeça.
        Buk é triste, um boêmio afundado em uísque, alguém que parece desistir da vida, ou pelo menos da alegria que lhe possa estar adjacente, e por entre um e outro conto, irônico e sagaz, nos mostra/leva a viver um e outro capítulo do nosso cotidiano.
        Salvação? Onde? Nos bares soturnos, em garrafas e drinques, em mulheres gostosas, com bunda, nos orgasmos, na cama com a mulher mais linda da cidade... Buk se limita. E seus personagens, auto-biográficos ou não, são de uma tristeza piedosa e comovente, meio que fracos e sem gosto; sem gosto pela vida.
        Pois o acúmulo de experiências com álcool ou drogas ou crimes, viver a vida no máximo, não é senão o sinal de uma insatisfação com o pouco que a vida dá, a fuga ao aborrecimento tão presente nos seus relatos.

        "Eu não tinha interesses. Eu não tinha interesses por nada. Não fazia a mínima ideia de como iria escapar. Os outros, ao menos, tinham algum gosto pela vida. Pareciam entender algo que me era inacessível. Talvez eu fosse retardado. Era possível. Frequentemente me sentia inferior. Queria apenas encontrar um jeito de me afastar de todo mundo. Mas não havia lugar para ir. Suicídio? Jesus Cristo, apenas mais trabalho. Sentia que o ideal era poder dormir por uns cinco anos, mas isso eles não permitiriam."   (Charles Bukowski)

        Mas sem mais demoras... 


A mulher mais linda da cidade (de Charles Bukowski)

        Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.
        As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos - “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado… Tudo por fora e nada por dentro…” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.
        O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la.

ilustração de Mag Barbosa para o conto "A mulher mais linda da cidade"

        Conheci Cass uma noite no West End Bar, Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade - o que bem pode ter contribuído.
        - Quer um drinque? — perguntei.
        - Claro, por que não?
        Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou varias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.
        - Me acha bonita? - perguntou.
        - Lógico que acho, mas não é só isso… é mais que uma simples questão de beleza…
        - As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?
        - Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.
        Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.
        Ela me olhou e riu.
        - E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?
        Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido a cena. Ele veio até a mesa:
        - Olha - disse para Cass, - se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.
        - Ah, vai te foder, cara!
        - É melhor não dar mais bebida pra ela - aconselhou o sujeito.
        - Não tem perigo - prometi.
        - O nariz é meu - protestou Cass, - faço dele o que bem entendo.
        - Não faz, não - retruquei, - porque isso me dói.
        - Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?
        - Sinto, sim. Palavra.
        - Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.
        Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.
        Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou:
        - Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã?
        - Amanhã de manhã - respondi, - virando de costas pra ela.
        No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama.
        Deu uma risada.
        - Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite.
        - Deixa pra lá - retruquei, - a gente nem precisa disso.
        - Não, pára aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro.
        Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional - os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando… Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se em baixo do lençol.
        - Vem de uma vez, gostosão.
        Deitei na cama.
        Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus.
        - Qual é o teu nome? - perguntei.
        - Porra, que diferença faz? - replicou.
        Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até às 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão - uma folha de inhame.
        - Sabia que ia te encontrar no banho - disse, - por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista.
        E atirou a folha de inhame dentro da banheira.
        - Como adivinhou que eu estava aqui?
       - Adivinhando, ora.
        Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava.
        Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem.
        - Esses filhos da puta - disse ela, - só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente.
        - Quem topa o convite já está comprando barulho.
        - Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo.
        - Eu estou interessado em você e também no seu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo.
        Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado.
        - Como é, seu sacana, pelo que vejo já voltou.
        Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.
        - Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?
        - Que nada, seu bobo, agora é moda.
        - Pirou de vez.
        - Sabe que sinto saudade - comentou.
        - Não tem mais ninguém no pedaço?
        - Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça.
        - Tira esses grampos daí.
        - Negativo. É moda.
        - Estão me deixando chateado.
        - Tem certeza?
        - Claro que tenho, pô.
        Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.
        - Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? - perguntei. - Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita?
        - Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.
        - Então tá. Sorte minha, né?
        - Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.
        - Muito obrigado.
        Tomamos outro drinque.
        - O que anda fazendo? - perguntou.
        - Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo.
        - Eu também. Se fosse mulher, podia ser puta.
        - Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo.
        - Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo.
        Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes.
        Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada - da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama, Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço - grande e saliente.
        - Puta que pariu, criatura - exclamei, já deitado. - Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma coisa dessas?
        - Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita?
        Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu.
        - Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo.
        - Se é - retruquei, - estou quase morrendo de tanto rir… Cass, sua cretina, eu amo você… mas pára com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei.
        Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.
        Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava a impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu.
        - Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa!
        Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não tinha chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivessemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fossemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando, e ao respondeu, pensativa:
        - Não.
        Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse:
        - Uma pena o que houve com sua amiga.
        - Pena por quê? - estranhei.
        - Desculpe. Pensei que soubesse.
        - Não.
        - Se suicidou. Foi enterrada ontem.
        - Enterrada? - repeti.
        Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta?
        - Sim, pelas irmãs.
        - Se suicidou? Pode-se saber de que modo?
        - Cortou a garganta.
        - Ah. Me dá outra dose.
        Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.
        Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:
        - MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!
        A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.

                                                   do livro "A mulher mais linda da cidade e outras histórias"
                                                   da L&PM Pocket
                                                    Tradução de Milton Persson

        Escritor reconhecido, sendo ou não do movimento do beat, mereceu algumas menções e homenagens de outros artistas...

Na música...

"Pego meu livro, leio Bukowski
Posso receber mais um beijo seu?
Me beije bem aqui na minha tattoo"

Na televisão...



No teatro...




        Um abraço para todos os fãs do Velho Safado!


05 julho 2012

Poesia Concreta

     Estes dias vi alguém (engraçado), dizer "tragam-me uma pá de areia e uma de cimento e faço um poema concreto". Eu não levei as duas pás, nem sei se alguém levou, até porque de concreto apenas percebi uma habilidade quase inata para o humor de tal personagem, mas aquele humor (bem, melhor não dizer o que penso)... Mas, façam o favor, levem esse homi pro stand up. Presumo que haja um espacinho para tão nobre espírito.
     E ao invés de levar os materiais, levo antes alguns poemas concretos até vocês. Bem mais leves e agradáveis que um ou outro balde de areia.



                             uma vez
                                    uma fala
                                           uma foz
                             uma vez         uma bala
                      uma fala        uma voz
               uma foz          uma vala
        uma bala        uma vez
               uma voz
                       uma vala
                               uma vez                                        
                                                                                            de Augusto de Campos-1957


vem  navio
  vai    navio
    vir     navio
      ver    navio
        ver    não ver
      vir     não vir
    vir     não ver
  ver    não vir
                ver  navios
                                                                                            de Haroldo de Campos-1958

ra   terra   ter
rat   erra   ter
rate   rra   ter
rater   ra   ter
raterr   a   ter
raterra     terr
araterra     ter
raraterra     te
rraraterra     t
erraraterra
terraraterra

                                                                                            de Décio Pignatari-1956

preto
preto     um jato
preto
preto     um óleo
preto
preto     um fato
preto
preto     petróleo     nosso
                                nosso
                                nosso
                                nosso
                                nosso
                                nosso
                                nosso
                                nosso     petróleo

                                                                                           de José Lino Grunewald-1957


Massa, né?

Um dia desses trago mais. See you!