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15 novembro 2019

A janela de grafite

Certa vez, um rato viu-se desafortunadamente encerrado numa caixa de papelão. Era uma caixa robusta, fechada em todos os lados - no topo, nos quatros cantos, no chão... De modo que o pobre ratinho não tinha ao exterior qualquer acesso, muito menos lograva dele visão. Luz nenhuma adentrava o espaço. Seus dias eram passados na extrema escuridão; escuridão que tateava sôfrego e curioso. Quem sabe encontraria sua salvação! Por sorte, ao cabo de alguns dias, descobriu no chão da caixa vazia um lápis de grafite. Intuitivamente, apressado até mais não, desenhou uma janela numa das laterais da caixa. A partir daí, a todo momento se sentava defronte dela e conseguia mesmo, pasmem, enxergar o mundo lá fora. "Ah! Que bom que é sentir a brisa! Ah! Não fosse esta janela e o ar seria irrespirável! Ai! Bendita janela!" E assim passou muitos dias e muitas horas. Tantas que a conta se perdeu. Um dia, porém, abriu-se ao lado da janela de grafite uma janela de verdade, grande, bonita, por onde o sol adentrou. O mundo lá fora era intenso - os ratos corriam para um lado e para outro atarefados, doidos, ocupados, às voltas com seus trapézios, e o mundo era uma mistura de azuis, verdes e cinzentos. Era o mundo tal como o conhecera. O pobre ratinho espreitou uma e outra vez, esfregou os olhos e foi sentar-se diante da janela de grafite. 

11 fevereiro 2012

A Carrapatolândia e seus Preceitos

Oh, Deus, 
Cousa na aldeia 
Nunca vista!,
O besouro Josias,
Ansioso e inquieto,
Farto de banal vida
Se enxere pra jumenta guria,
Cansou de ser inseto.

"Sabes, Maria,
Algo, não sei ao certo,
Em ti me cativa...
E de tal modo
Que tonto fico
De te rodear todo dia.
Casa comigo."

A jumenta,
Não sendo burra,
Ousou pedir-lhe um tempo.
É cousa muito séria
Esse troço de casamento.

Oh, mas e os possessivos carrapatos?

Fervorosos parasitas, ciumentos,
Se reuniram às pressas
No Genitalo-Parlamento.

"Mas é uma afronta!,
Um estrangeiro chega cá
E nos rouba nossa melhor jumenta;
Bonita, asseada, muito prendada...
E ainda por cima, vejam só,
Ainda virgem e na puberdade.
Oh, não pode ser!,
Só por cima do meu cadáver!"

"Senhor presidente da mesa,
Com sua licença, o caro Eufrásio
Tem no caso toda a razão;
E julgo por bem,
Bem defendermos nossos interesses.
Que nossas maiores riquezas
Se esvaiam em estrangeiros prazeres,
Por certo, não nos convém.
É essa seleta jumentinha,
Caros colegas, cujo sangue
Nos alimenta, que devemos proteger
A todo o tempo.
Eu digo não a esse casamento!"

E o Silvino Carrapato
Um aplauso arrancou dos deputados.

"Minha proposta de lei é essa;
A da proibição da união
Entre nossas jumentinhas
E um qualquer besouro estrangeiro,
mal intencionado charlatão."

E mais uma salva de palmas
Ecoou no Parlamento.

Clap, clap, clap...

Viva Silvino Carrapato 
E seu arguto pensamento!

Viva! Viva! Viva!

E em espaço de dias,
Mão da jumenta recusada,
Se entristeceu o besouro Josias.

"Oh, infortúnio!, isso
Como pode? 
Lá em minhas terras
Os estrangeiros se casam
Com quantas jumentas queiram;
Uma por vez é certo...
Assim a lei aceita.
Oh, xenófobos, vis trambiqueiros!..."

E nesse ponto o interrompem
Magistrados ou polícia,
Cidadãos de respeito.
Por pudor não cito...

"Senhor besouro, senhor besouro!,
Astuto que é, bem sabe
É de muito valor nossa espécie
Bem tratada de jumenta...
Assim sendo, besouro sabido,
Nossa jumenta tem seu preço
E não se dá por desvario..."

Por sorte Josias é rico!
Por sorte Josias é rico!



01 fevereiro 2012

O menino que não tinha coração

Foge, rapaz, das intempéries,
Mas sem que muito corras...
Sabes, não podes, sem coração
Fazer muito esforço
E, bem justos sejamos,
Não sei nem como a natureza
Se permite a tal coisa,
Dar vida a quem não tem
Coração que pula e ama.

Quem teu sangue bombeia
Senão Deus ou a própria alma?

E o pálido rapaz,
Mais branco que o branco
Do mármore,
Senta choroso, triste,
Embaixo de chorona árvore.
Um dia, ele sabe,
Talvez num ápice tudo acabe.

"Senhora, lhe digo de boa fé,
Coisa como esta custa a crer
E meu cérebro suspeitoso
Duvida até do que vê.
O rapaz não tem pulso,
Não tem um só batimento,
E eu digo-lhe, bem sério,
Não sei nem se esse coração
Em falta lhe impede 
O sentimento.
Coisas de Deus, que só
O próprio Deus entende."

E a mãe do rapaz, chorosa,
Tímidas lágrimas enxugando,
Num último suspiro encontra força
E solta fraca e soluçando:

"Por favor, doutor, me diga...
Meu menino, me confirme,
Quantos dias tem de vida?"

Franze o olho o doutor
Como se dizê-lo não quisesse,
Mas, oh, remédio!, avança
Pouco certo prognóstico,
A modos, que maiores males
Não se apregoam, é sério.

"Senhora, não sei,
Tampouco sabe a ciência
Remédio que nos valha
Quando fulminante dor
É a da perda. 
Tomara fosse Deus
E um tempo pudesse adiantar
Com toda a certeza.
Não sou, infelizmente,
E por isso uma data não ouso,
Não coloco validade.
Faça só uma coisa:
O abrace e o ame."

E a mãe assim fez,
Dia após dia dava beijo e abraço
No menino pálido em seu regaço.
Procurou curas e receitas,
Pais de santo, macumbeiros,
Rezou a Iemanjá, todas igrejas...

"Oh, Deus, maldito sejas,
A um inocente tão mal fazes.
Outra chance, meu Deus, lhe desses
Entre nós se fariam as pazes."

E a mãe, teimosa, persistente,
Se armou toda ela de saberes,
Enciclopédias, atlas, dicionários,
Manuais e mapas...
Estudou duro o corpo humano
E antes mesmo que se fora seu menino
Intentou seus conhecimentos,
Comprou três fios de arame farpado,
Duas pilhas de relógio bem acertado,
E meia dúzia de fivelas de couro
Onde mais tarde enrolou
Maravilhoso coração engendrado.

"Oh, está lindo! Está lindo!
E funciona, meu filho!
A batida é perfeita, uma
Por segundo, o sangue fraco
Bombeia, não tem perigo de derrame,
E a pilha, me garantiu o vendedor,
Dura, dura que se farta!
E não te preocupes, antes
Mesmo que acabe, cá estaremos 
De novo
Com toda a Operacionalidade."

Cirurgia feita, coração implantado,
Se espalhou a nova na cidade,
Que já tão nova não é,
Em todo lado, em toda a parte,
Tem muito menino pálido,
Coração pulando,
Tic-tac, tic-tac...



31 janeiro 2012

A Má Fortuna da Formiga Talita

Na sombra de uma vala
Mora formiga rasteira,
Trabalha toda a semana,
Todo dia,
Farta canseira...

E quando à noite chega em casa,
Seu marido descansado
Descobre, inda não fez nada.

"Está assim, bonito, não é, Rogério?
Tua árdua vida ajudas não permite
E, verdade seja dita, a cozedura
Do ovo, ainda que fácil,
Se apresenta a teus olhos
Grande mistério.
Louvada seja Senhora da Aparecida,
À infame fome aqui não dê guarida
E na mesa, pouca ou muita,
Se apresente uma comida,
Que eu de ti mais não espero
Senão causa perdida..."

O Rogério, mal disposto,
A nenhum ai se digna,
Controle da TV na mão,
Muda, liga e desliga,
Pés na mesa de centro,
Cigarro na direita, chope
Na mão esquerda...

"Ah, não falas? Boa vida a tua!
É um regalo o desemprego.
À sombra ganhar dinheiro,
Homi, não tem quem não queira,
E de se ver livre de patrão
Também não há quem não
Tenha vontade.
Mas, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Nessa tua vida de ócio, minha curiosidade,
Teu mesquinho ser acaso vê bom auspício?

O Rogério,
Homem de poucas falas,
Não contente com o transtorno,
Se toma de dores e fúrias
E agindo ao descontrole,
Batendo de um lado a outro da sala...

Punho fechado, soco,
Tanto lhe bate, quase a acaba...
Não fosse a barata Maurícia,
Cascuda vizinha da frente,
A pobre Talita, de má fortuna,
Seria finada.

"Ah, homi safado, 
Mau uso fazes da força;
Ao invés de a usares no trabalho,
A usas em casa.
Ah, fosse eu tua esposa,
A cabeça te abria no meio
À força da enxada.
Toma vergonha!"

O Rogério se cala,
Se fecha,
E não apenas dentro de casa,
Dentro de si mesmo,
Tecendo pensares
Em penosa teia,
Dizem uns mais benevolentes,
"Sofre de males de arrependimento".

"Coitado! No fundo não é má pessoa,
Tem esses achaques,
Culpa dos nervos, é doente".

E a pobre Talita, da vida curvada,
Só Deus sabe como aguenta,
Dez filhos precisando sustento,
Todo dia levando patada
E a polícia, oh, desespero!,
Nem aí pra nada...

No fundo, diz ela,
Maria da Penha é uma treta.



30 janeiro 2012

Fábula da Lagartixa do Rabo de Prata



"Lagartixa, lagartixa
Do rabo de prata,
Acaso pensas que não sei?..."
Falou o escorpião danado,
Sobranceiro e inchado,
Levantando suspeita,
A modos de criar rixa.


"Oh, assim tiras vantagem.
A príncipio, Matusalém, só tu
Sabes do que falas. Meio
Que meio injusto, não achas?"
Brincou Cibela, a lagartixa
Do rabo de prata,
Mas cara seria sua graça.


"Oh, como és virtuosa,
minha querida, assaz esperta,
E em tudo, verdadeira conotação
Da palavra, graciosa,
Mas temo, sou franco, 
Pelo teu sorriso e alegria.
De alegre poucos têm tanto
E, em saber de teu segredo,
Zé Hipólito morreria.
Oh, terrível seria o pranto!"

"Segredo? Oh, me conta,
Por favor, isso te rogo.
Não que seja curiosa,
Nada disso, só a curiosidade
Uma sensação me desperta,
A da coçeira no couro.
Alergia, pode ser, 
Estou em crer devia ir ao médico.
Tu, Matusalém, que me aconselhas?"

Ironia fina, de puro recorte,
Assim ela avança,
"En garde",
E se esquiva
Desse veneno-florete.
Mas eis que o adversário
Teima,
Como teimosos são seus ditos.

"Não estivesse noivo, confesso,
Todo a ti me entregaria, pois,
À beleza do rosto se junta
A elevação inolvidável de espírito
E em frente de problemas destreza tal
Que me julgo dos seres pobre resquício
De tão vulgar e pequeno. Como te invejo,
Astuciosa lagartixa, de rabo de prata vestida!
Contra meu mísero ego investes
E nele fazes tenaz ferida, e dói-me,
Dói-me que o tempo nem a vida
Me tragam a tua sabedoria,
Maravilhosa eloquência.
 Faz-me
 teu escravo, assim teu 
Senso o permita."

"Deixemo-nos de coisas, 
Cumprimentos devidos dados,
Fala, que pretendes, vil soldado?"

"Oh, querida, assim me ofendes!
Não existe em meus modos
Pretensão alguma. Ajo por bem, 
Não mal me julgues. Sou apenas
De Zé Hipólito receoso, 
Da cólera como sua doença. 
Sabes-lo, bem sei, amoroso,
Oh, mas quando o souber,
Muito me assusta, não o será de todo.

"'Quando o souber', falas,
E mais nada adiantas.
Fala de uma vez!
Não é de meu gosto
Meios discursos ou meias palavras
E tomo até tais modos
Por modos de covarde."

"Ah, pois que assim me ofendes,
Lagartixa safada!
E pois então to contarei.
Sabes que ainda que te pareça
Tonto, eu tonto não me sei,
E observando uns e outros
Penso até 'me saio bem'.
Mas isso pra conversa não interessa,
Interessa antes teu pouco pudor
E desrazoável confiança.
Achavas, por certo, ninguém 
Descobriria por Constâncio teu ardor...
Oh, ingenuidade, quase insana..."

Pavor não, que pavor é medo,
Mas um pouquinho de receio,
Mais pequeno, como filhote
Do medo medo,
Despontou em pequena cabeça
Da lagartixa do rabo de prata
E antes mesmo que ele mais falasse:

"Perspicaz, noto.
Não tenho, contudo, forma
Que teu silêncio pague
E em sendo honesta te digo,
O tivesse e não pagava.."

"Ah, lagartixa, te enganas.
Pra mim só outrora valeu a grana,
Agora outros valores me encantam,
Inda pra mais tomado de tua sensualidade,
E esses os pagarias com facilidade..."

E ela o interrompe num instante,
Feroz e brava...

"Oh, assim não fiques, Cibela,
Pra mim, só pra mim,
Por uma noite, só por uma noite,
Abana o rabo, abana o rabo!
E Zé Hipólito nada saberá,
Zé Hipólito não saberá nada,
O prometo,
É dito e jurado."

E eu mais não conto,
A não ser que Zé Hipólito
Morreu ontem,
Caracol e com dois cornos.