“Gostaria, querida,
De ser Inesperado
Como uma madrugada amanhecendo
À noite
E engraçado, também,
Como um pato num trem”
Millôr Fernandes
Interior.
Sala. Tarde.
Uma sala espaçosa e pouco mobiliada. No
centro, um sofá coletivo de pele por sobre um carpete encarnado. Na frente, à
esquerda, junto à boca de cena, um móvel pequeno com um televisor de vinte e
uma polegadas. Ao fundo, um móvel de sala com diversos bonecos e enfeites, uma
torradeira, um liquidificador e um porta-retratos. À direita, a porta.
Batem à porta. Lucas levanta-se do sofá
meio chateado, vagaroso. Pousa o controle. Abre. Do lado de fora está uma moça
elegante, extremamente linda. Loira, minissaia, tomara que caia branco.
Moça- (sorridente) Oi!
Lucas- Oi! (mais satisfeito) Em
que posso ser útil?
Moça- (entrando) Posso entrar? (senta
no sofá, descontraída) Sofá bom! Hum! Aconchegante... (levanta-se)
Desculpe. Eu nem me apresentei. Eu sou a Vida. Prazer.
Lucas- Vida?
Vida- Vida. Vida de vida, meu querido.
A própria.
Lucas- (estendendo a mão para
cumprimentá-la) Prazer. Eu sou...
Vida- (interrompendo-o) Eu sei,
eu sei. Lucas. Lucas Valverde Correia. Não é assim?
Lucas- É sim. Como você sabe?
Vida- (dando um tapinha no rosto
dele) Qual foi a parte que você não entendeu, hein, meu querido? Eu sou a
vida. A sua vida.
Lucas- Minha?!
Vida- (exibindo o corpo) Não
gostou? (sensual, se aproxima dele) Que é que você mudaria na sua
vida?
Lucas- (sem jeito) Na minha
vida?...
Vida- Sim, na sua vida. (no pescoço
dele) Fale, que é que você mudava na sua vida?
Lucas- (ainda sem jeito) Mudava
de casa...
Vida- (insinuante) De casa, é?
Por quê? Você não gosta da sua casa?
Lucas- Gosto... Mas é um pouco
pequena...
Vida- (apertando o queixo dele)
Hoje é seu dia de sorte, meu querido. (mostra uma chave) Sua casa
nova.
Lucas- Sério?...
Vida- (mudando de expressão)
Não! Brincadeira. A vida gosta de brincar. (senta no sofá, se espreguiça)
Ai!... Sabe que tá meio chato?
Lucas- O quê?
Vida- Ser a sua vida, querido. Você não
faz nada! Tédio! O dia todo assistindo, hoje, amanhã, todos os dias. Você não
cansa?
Lucas encolhe os ombros.
Vida- Mas, no fundo, até que você tem
sorte. Ter uma vida como eu, não é pra qualquer um, não.
Pausa.
Lucas- (sentando-se no sofá ao lado
dela, meio que pensando) Não tou entendendo, Vida. Vida, é isso?
Vida- (concordando)
Hmhmm!...
Lucas- Como que você pode ser minha
vida?
Vida- Oh! (pega a mão dele e coloca
na perna dela) Sabe o que um homem faz com a vida dele? Tudo que quiser. (pisca-lhe
o olho) Você tá pensando o mesmo que eu?
Nesse instante entra um homem todo vestido
de branco correndo.
Homem de Branco- Parou, parou! Você não
vai foder sua vida, Lucas! Pelo amor de Deus, homem. Olha pra ela, olha pra
ela. Sua vida é linda, cara. Você não vai foder sua vida!
Nesse momento entra um homem todo vestido
de vermelho correndo.
Homem de Vermelho- Vixe Maria! Mas que
vida danada de boa, hein? Ah, Deus do céu, eu não aguentaria!... Olha pra essa
perna! Ah, mas você só pode ser besta! Recusar uma vida dessas!... Hum! Só
queria que fosse comigo!...
Lucas- (levantando-se) Mas vocês
quem são, hein?
Homem de Branco- Eu sou a Razão.
Lucas- Razão?!
O Homem de Branco anui com a cabeça.
Lucas- E você?
Homem de Vermelho- Vixe! Não me
reconheceu, não, meu filho? Eu sou a Inveja.
Lucas- Pronto. (cumprimenta-os)
Prazer, eu sou o Lucas, agora podem sair.
Homem de Branco- Mas eu só quis te
aconselhar. Só quis ajudar...
Homem de Vermelho- Deixa-me ficar
assistindo. Deixa. Deixa assistir.
Lucas- (empurrando-os) Embora!
Embora!
Homem de Branco- Depois não diga que
não avisei, hein?
Homem de Vermelho- Desperdiça não,
rapaz. Desperdiça não.
Lucas- Tá bom, tá bom. Adeus,
adeus...
O Homem de Branco e o Homem de Vermelho
saem.
Vida- Noossa! Como você foi decidido! E
forte! (examina os braços dele)
Lucas- Olha, moça, eu não sei quem você
é, não faço ideia do que tá acontecendo... Isso tá confuso que só o diabo! Não
tou entendendo nada!... É melhor você ir embora.
Vida- Embora? Você tá me mandando
embora?! Você sabe o que você tá fazendo? Você tem noção do que tá fazendo? (principia
a chorar, atira-se no sofá chorando)
(Trecho de Roleta Russa)