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08 dezembro 2014

O jogo



Um dia ficarão as cartas sobre a mesa, esparsas, alheias ao gozo do lance. Eu e ela seremos fios de sombras imberbes sulcadas na tua pele argilosa, indeléveis, mas estultas. Se abrirão teus poros cálidos, minha mãe, ao orgânico esquecimento, e nós, instantes apenas, não seremos, como blefes cujos intentos se consomem. Ninguém nos chorará. Antes o verme se regozijará, sedento; seremos, enfim, banquete – o soube, confesso, desde sempre. Não agradando a todos - aos de Lampião e aos de Viriato, simultaneamente -, agradaremos aos de zilz, soberbos hospitaleiros de eclético palato. Ficarão os cabelos, sujos, porcos, lembrando-nos, pertinentes.
Mas isso será depois... Só depois. Por ora, embaralho as cartas, capricho no corte... Dê-me a fortuna boas mãos. O lance é o momento. E o jogo é esse.

23 novembro 2014

Comme ci, comme ça



Perguntam, às vezes, o que tenho, como quem questiona o que procuro, como quem indaga de que me aborreço. Pois bem, serei franco. Eu aborreço-me do nada. Do nada inócuo, silente, comme ci, comme ça. Aborreço-me de não saber-me ou de saber-me mais que na medida do saudável. Aborreço-me por vontade própria ou, vezes outras, sem vontade. O aborrecimento, escarninho, sonso, vem, senta do lado, ensaia diálogos. Quando vejo é tarde. Fui na conversa dele.
O que tenho são esgotamentos, impaciências, medidas soberbas. Não caibo em mim. Nem poderia caber-me. Ainda bem. Se me esgotasse em mim mesmo, quão mais enfadonho não me seria ser!

21 novembro 2014

Dia da criança

Porque eu sou cliché, hoje mesmo sou menino, de uns quatro para cinco anos, sem problemas, só sorrindo, à vista de um balão imenso colorido, de uma bola de gomos profissional de futebolista, de um robot esperto com suas tagarelices. Sabe?, eu, menino de quatro para cinco anos, não morro. Nunca morri. Dos olhos guardo o mesmo brilho, ora alegre, ora triste; da boca, as mesmas interjeições e espantos; dos ouvidos, as mesmas surpresas e apetites. Meu apetite auditivo é enorme, e melhor escuto do que me comunico. O que quero é absorver o mundo, o dito e o não dito. De resto, sou mudo, vez ou outra. O mais que fale é tão pouco diante de tudo!
Não morri. Tenho hoje de quatro anos para cinco. Ainda não sou alfabetizado. O mais que leio é o mundo. Mas, sabe?, das leituras que faço desse mundo, esse mundo de quatro para cinco é danado de lindo!


15 novembro 2014

Balanço

Ficarei no parque. No balanço. Entre um ir e vir compassado, gostoso, entre a juventude e a infância. (Velhice não! Por Deus.) Para que lado as coisas pendem?, se para algum devem pender... E de que escolhas independem minha razão e ser? Entre um balanço e outro, essa coisa para lá e para cá, volto velho, vou novo, não vale desesperar. Vou são, volto louco... O negócio é viajar. Tem coisa mais doida que não saber o que pensar? Não, não responda. Deixe-me com a ilusão de que sou doido que não tem como igualar. Ânsia torpe, bem sei, de execrar. “Olha o doido! Olha o doido do balanço. Olha o doido a balançar.” Que miséria! Um homem cansado de ser homem se volta para dentro, quer endoidar. Que é que há, gente? Nesse vai e vem para lá, para cá, deu vontade de lá ficar. Aqui a opção é entre o salgado e o doce; lá, entre outros paladares. Aqui, entre o amor e o ódio; além, não tem como diferenciar.
Afonso! Afonso! Gritarão um dia qualquer. Afonso! Alto, quem vem lá? Não é esse que deixamos naquele mesmo lugar!
Eita, negócio penoso! Volto a explicar: blá, blá, blá... blá, blá, blá... Entendeu? Se não, a culpa não foi minha; foi o balanço que cedeu.