Esse microconto de Dalton Trevisan faz parte do livro 111 ais. É o de número 74.
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22 novembro 2019
Um ai de Dalton Trevisan
Bêbado, ele me bate sem dó. Fica doidão, quer fazer de tudo. Se resisto, apanho mais ainda. Ai, meu Jesusinho. Então abro as pernas. Uma vela para as almas do purgatório.
14 abril 2016
#microcontointergaláctico
O pai, terráqueo, esbravejava: "Meu filho será nascido e registrado aqui. Será americano, como seu pai e avós". A mãe, extraterrestre, era indiferente ao local de nascimento da criança. Sabia que havia muito para além da América.
15 novembro 2015
Microcontos intergalácticos
I
Certa vez, um extraterrestre (do
Kepler-186f, dizem) apaixonou-se por uma terráquea. Entre as muitas qualidades
da moça, o extraterreno destacava: “admiro sua capacidade para parecer aquilo
que não é. E a forma como crê que é de verdade”.
Casaram, numa plataforma interestelar, em
22 de fevereiro de 2712, e divorciaram-se aos 20 do mesmo mês e ano. Os amigos
do rapaz foram unânimes: o tempo não resistiu a uma farsa.
II
O et e a moça praiana caminhavam pelas
dunas, sorrindo, cheios de amor, quando, de repente, principiou a chover. O
rapaz estacou, então, receoso, não entendendo o que sucedia, enquanto a moça o
apertava contra o peito e dizia: “sossega, é só uma chuva”.
III
Depois de ser abduzida, a moça, de volta a
casa, escreveu no seu diário: o problema do mundo não é a comunicação.
IV
Numa convenção intergaláctica, Sir Loveboy, filósofo renomado, proferiu
palavras que intrigaram todo mundo, literalmente. Segundo ele, “os
extraterrestres amam sem saber que amam, ao passo que os terráqueos amam
sabendo não amar”.
Expulso da convenção, uns dias depois
ousou uma explicação que, em verdade, nada o ajudou: “os extraterrestres falam
sem saber que falam, enquanto os terráqueos falam sabendo não falar". E foi assim
que o mundo intergaláctico, aos 12 de setembro de 2800 e qualquer coisa,
percebeu que não gostava de filosofia.
V
É sabido a preocupação que os pais têm com
seus filhos. Especialmente com as filhas. Pois foi assim que muito se aborreceu
o senhor F., quando, em passeio pela cidade, lhe chegou aos ouvidos que sua
caçula namorava com um extraterrestre. E isso já havia algum tempo. Como é que
era possível?
Voltou, então, para casa, meio furioso, disposto
a tirar satisfações com a menina. Ao deparar-se com os dois, que o esperavam a
fim de formalizar o pedido de casamento, não se conteve: “podias, ao menos,
ter-me prevenido de que ele tinha a aparência de um homem”.
VI
Quando pensaram em casar, o maior problema
que se lhes deparou foi decidirem onde morar. A moça queria morar na Terra,
claro, afeiçoada que era aos seus pais, e ao oxigênio que respirava. O rapaz,
por seu lado, ambicionava continuar a vida em Kepler, ligado que era aos amigos
e aos bares.
24 fevereiro 2015
Matemática
Apaixonei-me, certa vez, por uma matemática e, felicidade das felicidades, logrei mesmo namorá-la. A primeira coisa que lhe disse foi: "Não quero ser só mais um".
23 dezembro 2014
Grampo
Depois da transa: Se
desse grampeava minha vida na tua. A moça deu uma baforada de cigarro:
Grampear? (riso) Teu corpo no meu, e
só.
22 dezembro 2014
20 dezembro 2014
Pérolas
Entre
um trabalho e outro de reposição, contávamos e amealhávamos uma mão cheia de
pérolas. Desde o chefe instrutor se cortando com o estilete até a imitação no
celular da voz de comando, passando pelos trejeitos incomuns dos clientes,
fomos sempre apenas proletários tentando fazer sua jornada de trabalho mais
branda.
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