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18 janeiro 2025

Anjo da guarda

Eu tenho um anjo da guarda;

Você há de ter um também.

Mas o meu... O meu anjinho

Não é igual ao de ninguém.

 

Meu Anjo da Guarda

É maiúsculo, meu bem.

Você imagine a força

Que o meu anjinho tem.

 

Meu anjo da guarda é grande,

De todo mal pode livrar...

Se eu pedir ao meu anjinho,

Ele também vai te guardar.

 

Meu anjinho sabe de tudo,

De nada vai se olvidar.

Ele sabe do meu amor,

Que o propósito é cuidar.


28 dezembro 2024

Sempre/Ainda o beijo

Não, não foi só um beijo...

Não foi só o primeiro...

Não foi só desejo...

Foi amor verdadeiro.


Não, essa tarde não morreu;

O quarto não se fechou;

A ânsia não desapareceu;

Nenhum de nós mudou.


Ainda somos os mesmos...

Fortes, fracos, grandes, pequenos,

Do tamanho do coração...

Ainda somos do tamanho do que sentimos,

Ainda desejamos o toque da mão...


Ainda tudo é novo, perfeito;

Ainda tudo acontece pela primeira vez;

Ainda tudo estremece no peito

Quando te beijo, quando te abraço, quando me vês...


O tempo não passou; o tempo não passará...

Seremos sempre eu e tu,

Em um quarto ou em qualquer outro lugar,

Abraçados no hoje,

Completos, agora, sempre e amanhã.

04 outubro 2024

Oração para abrir manhãs

Que seu sorriso se abra hoje como flor

Que seus dias sejam leves e carregados de amor

Que sua alma não desespere

Que a alegria lhe carregue

E me leve, e me leve

Junto, por favor...

 

Que seus dias se pareçam com os meus

Que seus braços me abracem

E em mim toquem os céus

Que seus lábios façam rezas

Digam que seu amor sou eu

Sou eu, sou eu, sou seu...

 

Que as noites não sejam frias 

Nem as horas duras e grossas

Que não vença a melancolia

Vençam as esperanças nossas!

Que o verão chegue logo

E o calor não nos falte

Que o verso dance alegre

Numa folha de asfalto...

 

Que o poema seja a gente

Que o poema sejamos nós

Abrigados um no outro

Rio correndo para a foz...

 


22 setembro 2024

Com certeza

Eram três da manhã quando te vi

Ou deveriam ser quatro

Talvez cinco...

Talvez não fosse noite

E eu nem estivesse dormindo...

Talvez não fosse sonho

Fosse horário vespertino

Ou noturno, mas cedinho...


Meio-dia assinalavam os sinos da igreja

Alguém, moribundo, falecia...

Ou seria meia-noite

E se iniciava outro dia?

 

Não sei.

O calor que senti... Deveria estar o sol a pique

Ou se inclinando bem pouquinho. 

Talvez já descendo, ou ainda subindo.


Não sei...

Sei que te vi.

E como não sei que horas eram

Vou dizer a todo mundo que te vi a toda hora.

Na verdade, quando o disser

Com certeza, não estarei mentindo.

26 agosto 2024

Enquanto...

 

Podem me roubar muito

Já muitas vezes o fizeram

E muitas outras vezes o farão

Muitas horas, dias, anos

Alvores e crepúsculos sentirei que me foram roubados

Mas eu, que ao teu toque me sinto senhor do mundo

Nunca perderei tudo

Enquanto teus lábios aportarem nos meus

Tuas mãos se alegrarem nas minhas

Teu sorriso for para mim o mais claro céu

Tua presença a mais linda extensão de vida...

Enquanto meu peito estremecer ao ouvir teu nome

Minhas mãos tamborilarem ansiosas de te ter

Meus olhos resplandecerem por te ver

Meu corpo teimar tanto em te querer...

Enquanto assim for, não haverá roubo que me cause dor

Enquanto assim for, por mais que me tirem, eu tenho o amor...

 

 

14 abril 2020

Rimbombom

Rimbombom subiu aos céus
Doido que era, jurava o céu era seu
As nuvens eram algodões
Comprados da farmácia de Nereu
A chuva, um vazamento inoportuno
Foi de seu rosto que choveu
Os trovões, ah!, eram gritos
Tão gritos que a mãe lhe deu
E os relâmpagos - quem o negaria? -
Ah, meu Deus!, também eram seus.

Rimbombom era um doido
Do mais doido que havia
Rimbombava, rimbombava
Mas ninguém, ninguém
Dos mais sãos por esses dias
Da mais alta sabedoria
Teve, de dizer-lhe, a ousadia:
Rimbombom, Rimbombom
Nem o céu nem a chuva
Nem relâmpagos nem trovões
Nada... Nada lhe pertencia.

Rimbombom, Rimbombom
Há coisas que não se tiram a um homem
São tão suas quanto sua vida.

Rimbombom sou eu!


rbcovo
com Samaricaparteira

05 janeiro 2020

Dracena

Sinto, às vezes, nas horas mais conscientes
Um assomo do outro mundo
Um abalo repentino, um tremor profundo
E se me parece vago tudo isto e isto tudo. 
De tudo, desta vida, sinto um alheamento sem fim 
E, como se deste mundo não fora, enxergo tudo de fora de mim. 
Não encontro par nem raízes; alguém, porventura, me jogou aqui.
São-me estranhos os modos, as ruas, os risos
As pessoas, de todas as cores;
Deslocadas e tolas as esperanças, todos os amores...
Eu não sou daqui. 
Meu é o turbilhão e o desgaste
A pressa e a urgência de fugir.
De quê? Para onde? Não sei!
Tem de haver para onde ir?

Nas horas mais tristes e nas mais felizes
Turvam-se-me os sentidos
O mundo para num solavanco. Eu parei.
Enquanto isso, os outros se passeiam, diante de mim, frame a frame
E, uma e outra vez, a voz, uma voz que vem:
"Isso não é teu" - acusa;
"Este mundo não é de ninguém". 

Eu murcho.
Não é meu o rouge da dracena?
Não é meu este poema?

04 janeiro 2020

Sobretudo

Amo desta vida tudo
E mais viva mais amarei
A tudo e a todos
A uns e a outros 
A ti e a mais alguém

Nunca amores poupei
Não se poupa o que se não tem
Antes dá-se por completo
Bem querer a quem se quer bem

Amo os desejos torpes
O torpor em vai e vem
As cores - os azuis e os verdes
As paixões grafitadas nas paredes
O vazio, o nada, o nunca, o ninguém... 

Amo os risos - os prolongados e honestos
Os choros - miúdos, sofridos, funestos
As rugas que se erguem fortes e altivas
As horas teimando no rosto convencidas

Amo os maus jantares, as texturas nojentas da comida
Os gritos das crianças na calçada
A pipa que minha infância achou perdida

Amo as mulheres todas da minha vida
Adoro suas almas femininas
Seus trejeitos elegantes mal contidos
A invenção que fizeram do carinho

Amo-as mães, com os ventres rasgados e fecundos
Sua força de dar outro a este mundo
A generosidade acima de tudo

Amo essas almas elevadas
Para quem mais elevado é um filho

Amo as dores nas costas - revelam-me vivo
Os odores nauseabundos do banheiro da escola,
Problemas irresolutos e sarilhos

Amo os poetas, os filósofos incompreendidos
As palavras vãs e as vãs filosofias
As piores ideias - nas piores noites - nos piores dias

Amo os ósculos e os amplexos
Os desfechos abruptos e sem nexo
As casas antigas e sem teto
A dubiedade do reflexo

Amo teu rosto sincero
Tua dificuldade de mentir
As brigas, as zangas, a louça partida
O que sei e o que não sei exprimir. 
As horas na rede, a cerveja gelada
O ócio, o não pensar em nada...

Amo as palavras - as rudes e as meigas
As doces e as amargas
As que machucam e as que confortam
As que doem e as que não importam.
Amo-as pesadas, gordas, grávidas
Dando à luz;
Amo-as recicladas, temperadas, 
Fazendo ou não fazendo jus. 
Soltas, doidas, vagabundas
Sujas, maltrapilhas, imundas...
Amo-as todas
Como a todas as águas do mundo.

Amo tudo
Amar, sobretudo. 






28 novembro 2019

Poema machuca-flor


De uma flor
Arranco pétala
Bem me quer, mal me quer
Ela gosta de mim
Felicidade etérea


13 novembro 2019

Nunca

"Nunca" é palavra que não se garante, 
Encerra tempo desmedido.
É altiva, garbosa,
Fingidamente segura e orgulhosa.
Vista no espelho mostra-se exatamente -
É ela própria e o seu contrário.
Entre o "nunca" e o "sempre" existe, porém, um ponto intermediário,
Um meio termo entre a esperança e o medo
Que não é, todavia, refletido. 
O "nunca" pós-verbal não é sequer, por si só, negativo
E mesmo que um seu parente mal-humorado e rotundo corra em seu auxílio, 
Todo o negativo tem equivalente positivo,
De modo que o dito se desdiz
E fica o dito por não dito.

Segue uma fabulazinha:

Três "nunquinhas" saíram para passear
Encontraram três "semprinhos"
Começaram a chorar
Gritaram: "Mamãe Nunca,
Os semprinhos vão nos matar".
Mamãe Nunca nunca foi
Os seis deram de namorar
Tiveram três filhinhos:
Simzinho, Nãozinho e Quiçá...
Você quer mais? 
Não chegam três meninos pra aperrear?


21 novembro 2018

Poema





Queria mostrar-te o som dos meus dias
A melancolia teimosa, a nostalgia
O não querer mais que não querer
Os passos amarelo-risonhos
Constrangidos, obedientes;
O bem-te-vi rasando minha cabeça
A alegria cadente de estrela
O interior marítimo silente...
Queria mostrar-te o som das velharias
Os sonhos dependurados no alpendre
A turva de fantasias guinchando estridentes
O sol maquinal depondo cada um dos dias...
As agonias, ululantes, resilientes
Os desejos, esquivos e desobedientes...
Queria mostrar-te o som da indiferença
O som das cores – do branco e do negro.
Queria mostrar-te o som das ilusões
Como soam os amores e os apegos...

Lá vai! Oh, lá vai uma vã esperança! Oh, lá vai!
Aí vem! Oh, aí vem uma vã lembrança! Oh, aí vem!
Queria fazer-te ouvi-las, fazer-te vê-las...
Mas eu escrevi (só) um poema.

03 setembro 2018

Semanário

Sofro de um onirismo profundo - os sobressaltos são imensos.
Minha visão, tão subjetiva e tão turva, necessita correção urgente.
De dia, sinto espasmos violentos - quando o real se apresenta.
Na segunda-feira, dois homens se batiam na fila do cinema;
Um homem jogou a mulher da sacada na terça;
Na quarta, metralharam a casa de Pedro - morreu todo mundo -
E todo mundo era inocente;
Na quinta... Ah, na quinta! Na quinta, o discurso de ódio passou na TV
SEM PROBLEMA!
Ivone, por gostar de menina, foi morta na sexta;
No sábado, dois moradores de rua foram assassinados com pedradas na cabeça;
No domingo... Ai, no domingo! No domingo, o espasmo foi mais violento - todo mundo foi à igreja.

20 julho 2018

Que horror!

Horrores há que não confesso - são horríveis.
Tão horríveis são que sinto horror de os sentir.
Horroroso é como me sinto só de senti-los emergir.
Podia ter horrores menos próprios, menos horrores, menos horríveis
dos quais pudesse contar e rir,
mas deu a meus horrores de ser horrores
bem horrorizantes e horrorosos
que à força de tanto horrorizarem - a mim, logo a mim! -
maior horror adivinho vir.
Ai que horror horrível horroroso horrorizante!
Quem em seu juízo horrível teve a horrível ideia de o parir?
O "outro" ergue orgulhosamente a horrenda voz
de timbre grave horroroso:
- Fui eu!
É horrível, mas só um pensamento me vem:
Vai pra puta que pariu!

13 novembro 2017

Rio de Janeiro



Doeu-me a dor alheia,
Que me dela alhear não pude...
Tão fraco fui e me fizera,
Tomado todo da miséria 
Achada nos outros amiúde.
A cidade, pois, contrastante,
Se erguia garbosa de bela,
Os filhos, tantos!, depostos sobre a terra,
Gordos pretéritos, esquálidos avante...
Não vivem, repousam; não teimam, cedem. 
Convenceu-os o pó, o pó, o pó de onde vieram.
Iríeis para onde, irmãos? Não vedes? Olhai-vos!
Aqui sois vós, tão completa e exatamente,
Tão vós, tão assomo de tudo, tão partícula do nada.
Aqui podeis ser o que sois, como sois,
Até o por que sois
A vida que vos foi dada.
Quando quiserdes ser livres, deitai-vos,
Não na alcofa macia e perfumada; 
Deitai-vos sobre o negrume dos dias,
A cabeça pendendo da calçada, 
Ébrios, turvos, doidos e difusos,
Parindo novas palavras.
Que sentido esse que queríeis!
Que definições e conjecturas buscáveis!
Não creio, não posso, não devo nunca crer.
Vós que conheceis o frio, o tolher dos ossos
O mirrar onírico, não tendes como ceder. 
Abaixo do solo e do verme, só uma miséria: nascer.
Mas como censurar-vos o destino, a teimosia em ser?
Como censurar-vos a vida que teimastes? - nada vos foi dado escolher.
Cai-vos sobre os ombros torcidos o sumário desprezo. 
Os outros são grandes - todos eles! - e vós, pequenos. 
Os outros têm sonhos que os levam a passear - 
Aos domingos.
(À semana não - têm que trabalhar. 
Se os sonhos não trabalhassem, como seria sonhar?)
Os outros têm esperanças. De todas as cores. Não apenas verdes. 
E sopram, e enchem-nas, puxam, repuxam, contorcem-nas, 
Até que um dia rebentam, nos ares e nas paredes. 
Esperanças morrem cedo. Jovens. E são de muita estima.
Não fossem elas, não sei que seria desses gigantes nem das suas vidas. 
Os outros possuem medos - ou estes é que os possuem - 
E fecham-nos em sótãos apertados, fazem segredo. 
Os medos são horríveis - o melhor é escondê-los.
Vós, pequenas criaturas, não tendes sonhos; 
Os que tivestes foi antigamente.
Fatalidade: foram atropelados pelo bonde.
Esperanças? Ficam no final da rua.
Uma e outra vos espreitam, uma e outra se escondem.
Vós, pequenas criaturas, não tendes sequer medos. 
Que medos havíeis de ter? 
Vós, pequenas criaturas, é que sois os medos desses gigantes. 

24 outubro 2017

O leitor

Li um poema que me deixou assim
de um modo que nem bem sei
o lábio torcido, o juízo mal posto
uma gastura férrea, humor pesado e grosso
O poema era todo amor
ósculos, coitos, afagos...
Era vivo!
E eu, que vivo nesta mortandade
que só vou porque me levam meus passos
que rio para disfarce da minha pena
fiquei assim...
De maneira que
vou ler de novo esse poema


22 abril 2017

Todas as palavras são de amor

Nossas primeiras palavras são de amor.
São de amor todas as palavras.
Não apenas as primeiras.
Mas a primeira palavra...
A primeira palavra da criança,
Titubeante, imprecisa, é de amor:
Papai, mamãe...
É de amor todo o esforço, toda a vontade,
A semântica.
Ela quer dizer: “eu te amo”.
Todas as palavras são de amor.
Não apenas as primeiras.
Às vezes, só não sei dizer “eu te amo”.
Mas a primeira palavra, a mais remota,
Nascida nos primórdios, atirada, rudimentar,
A segunda e a terceira, a quinquagésima e a milenar,
Ainda que de roupas outras, foram de amor.
São de amor todas as palavras.
Às vezes, só não sei dizer “eu te amo”.
Às vezes, é teu ouvido duro, teimoso,
Que não para para escutar.
Por trás de palavras outras, eu disse “eu te amo”.
“Eu te amo” é a única coisa que eu falo.


04 janeiro 2017

A toupeira



Seus meninos são lindos,
São, sim – sim, são – são, sim...
Cada um do jeito seu.
Já eu...
Disse a toupeira,
Olhe pra mim,
Não há ninguém que queira;
Esse caritó não tem fim.

Sem pescoço e sem orelhas,
Pouco enxergando além,
Dizem todos, sou feia,
E me tratam com desdém.

Seus meninos não.
Seus meninos são lindos.
Sim, são – são, sim – sim, são.
A eles não tem quem negue
Qualquer uma pretensão.
Peçam a mão que quiserem,
Não se perde a ocasião.

A toupeira, carente,
De solidão achacada,
Prosseguiu mal ciente
Do receptor aí pra nada.

Pretendente inté que tive,
Mas levei nenhum a sério –
Querubim, Filinto, Orestes –
Eu de todos nenhum quero.

Meus pretendentes são feios,
São, sim – sim, são – são, sim...
A eles não tem quem queira,
Como não querem a mim.
Pudesse eu!...
Ai, eu pudera
Casava com um de seus filhinhos!...
Pudesse eu!...
Ai, eu pudera
Casava com um de seus filhinhos!...

Tardou um tanto, dizem,
Do outro lado a emissão,
E o tanto que tardou
Trouxe um tanto de não.

Meus meninos são lindos,
Sim, são – são, sim – sim, são.
Qualquer deles bom marido,
Mas pra toupeira não.
Só depois de falecidos
(seja longe a ocasião),
Os meus meninos lindos,
Viverão embaixo do chão.

Meus meninos são lindos,
São, sim – sim, são – são, sim!
E não é você, toupeira,
Que vai tirá-los de mim.
Sim, são – são, sim – sim, são!
Desculpe minhas maneiras,
Mas minha resposta é não.

São pouco usuais meus modos,
Até talvez um pouco tolos,
Mas diga-me, querida toupeira,
Que emprego tem você?
Querida toupeira, me diga,
A menina é graduada em quê?

Não houve então porfia,
Pois a toupeira silenciou.
Virou costas, abriu um rasgo,
Na terra se afundou.
Seus meninos são lindos,
São, sim – sim, são – são, sim...
Ainda um tanto pensou;
Mas eu é que não quero
Uma sogra dessas pra mim.

No fim, nunca casou
A toupeira desse conto,
Embora cantassem alguns:
É linda essa toupeira
É, sim – sim, é – é, sim,
Mas pra mim não tem olhos,
Não tem olhos pra mim.