Nas dunas ele fez o pedido,
Perto do mar se casaram,
Nove dias de lua-de-mel
Na Ilha de Capri passaram.
A ceia da primeira noite foi espetacular:
Um cozido de frutos do mar.
Enquanto ele comia um caranguejo,
Ela ia alimentando um desejo.
E o desejo virou realidade - ela teve
um bebê.
Mas era humano, o menino?
Bem, bem... isso não se sabe.
Das mãos, dos pés, os dedos eram dez,
Tinha tubos, tinha olhos,
Podia ouvir e perceber.
Mas normal ele era?
Isso já não dá pra dizer.
Para os pais, uma praga, um desespero:
O começo de todos os pesadelos.
Com o doutor a mãe foi se queixar:
"Essa criança não é minha,
Pois cheira a oceano e alga marinha."
"Minha senhora, isso não é nada!
Uma menina de bico e três orelhas
Eu tratei na semana passada.
Por seu filho ser meio ostra,
Não adianta me culpar.
Quem sabe fosse o caso de comprar
Uma casinha à beira-mar..."
Sem saber que nome lhe dariam,
Chamavam-no apenas de Francisco,
Ou por pura e simples antipatia:
"Aquilo que parece um marisco."
Mas da concha o Menino Ostra não sairia?
Era o que todos se perguntavam, dia após dia.
Já os quadrigêmeos Quadros, espiavam.
Gritavam "Um bivalve!", e se mandavam.
Numa tarde de verão
Chico foi esquecido sob um aguaceiro
Na avenida Oceano, ao lado do canteiro.
Ele lá ficou, observando os redemoinhos
Da água da chuva escorrendo pelo bueiro.
Enquanto isso a mãe, parada
Na beira duma auto-estrada,
Dava murros no voltante.
Era grande a sua aflição,
A dor cada vez mais forte
De toda a sua frustração.
"Sinceramente, meu querido,
Não quero parecer chata,
Mas alguma coisa nessa história
Anda muito mal contada.
Noto o quanto você tem se esforçado,
É mesmo admirável que não tenha desistido,
Mas não venha me dizer que seus problemas
Na cama
São todos culpa do Francisco."
O pai passou pomadas, tentou unguentos,
Que fizeram tudo ficar vermelhento.
Também experimentou poções e loções
E até um preparado de erva brava.
Mas as coceiras, a dor, as contrações,
Os sangramentos só aumentavam.
O médico fez uma conjectura:
"A fonte não é de todo segura
Mas seu distúrbio pode ter cura.
Está quase provado: comer ostras
Propicia um desempenho sexual extra.
Talvez, devorar seu filho
Ajude a durar por horas e horas."
No quarto em que dormia Francisco
Ele foi entrando bem de mansinho.
A testa era só suor.
A mentira, ele sabia de cor.
"Você é feliz, filhinho meu?
Você já quis visitar o céu
Ou então ir pro Beleléu?"
Francisco deu duas piscadas
Mas não disse nem um ó.
Papai então, apalpando a faca,
Da gravata desfez o nó.
Foi um só golpe, um golpe só.
Com sangue do paletó,
Ele pôs a concha junto aos lábios,
E foi assim que Chico lhe desceu goela abaixo.
Rápido, lhe enterraram os restos perto do mar.
Choraram uma horinha,
Rezaram uma rezinha,
E bem rápido voltaram para o lar.
Uma cruz de galhos cinzas fincaram no local.
Escreveram na areia: "Jesus salvará".
Mas a primeira onda mais forte arrastou
Sua lembrança para o fundo do mar.
Já em casa, na cama quentinha,
Papai beija mamãe, se abraçam
De conchinha:
"Vem, meu bem, hoje estou com toda a
adrenalina!"
"Ok", ela sussurra, "só que desta vez
tem de ser uma menina."



















