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26 dezembro 2019

Amor ao quadrado


Josefa amava Raimundo, que amava a vida boêmia. Um dia, ele disse: “Josefa querida, você sabe que eu amo você... Mas não sei... Acho que ainda não estou preparado para assumir um compromisso”.
O namoro de anos acaba, a moça chora, o rapaz se anima – ninguém perturbará sua liberdade. Viva! Viva! Andará solto qual coruja soprando as madrugadas em cima dos telhados.
Poucos meses depois, Josefa sabe por uma amiga carpideira – Raimundo se casou. Não consegue segurar o pasmo. Raimundo, aquele Raimundo, o que não estava preparado há meia dúzia de meses atrás, se casou. Questiona: é o mesmo Raimundo? Você tem certeza? É, sim, é o mesmo. Inacreditável! O homem boêmio deu de repente o nó. A mãe de Josefa se indigna: que cabra safado! Mentiroso duma figa!
Não muito distante dali, Robertinho se restabelece. Terezinha acabara o namoro. Era muito nova para se casar. Ainda mal completara vinte anos. Precisava viver, conhecer mais, estudar, se formar... Não podia se prender. Robertinho era um rapaz formidável, uma pessoa incrível, e era impossível mensurar o que sentia por ele. Mas era cedo!... Você entende, Robertinho? É cedo! Quem sabe um dia... 
Robertinho sofreu demais. Chegou a pensar em suicídio. Principalmente quando a mãe, insensível, chegou da rua e disse: “Robertinho, meu filho, Dona Filó acaba de me contar que Terezinha, sua ex, se casou na semana passada”. Robertinho ficou entre o desmaio e a cólera. Levantou-se da mesa de jantar e foi para o quarto. Pegou o estilete, balançou, corto x não corto os pulsos, até que adormeceu no assoalho.
Você sabe com quem casou Terezinha? Com Raimundo. E hoje mesmo Josefa começou a namorar com Robertinho. Serão felizes? Eu sei lá! Sei que liberdade e boêmia não fazem cafuné. E que não há idade para amar. E que o amor dá umas voltas que não são de fiar.

20 dezembro 2019

3 x solidão


Nunca refleti o bastante sobre a solidão. Os momentos em que estive sozinho, aproveitei-os, via de regra, para debruçar-me sobre outros temas: a vida, Deus, a morte, o amor... E foram inúmeros. Eu sou, diria, um solitário nato. E na mais completa solidão, na contemplação do silêncio e paz dos azuis celestes e dos verdes naturais, encontrei sempre o mais puro gozo e satisfação. Nasci com a urgência do pensar, com a vontade de comunhão com as coisas, ao mesmo tempo com a força de um alheamento sem fim. Fui sempre um espectador, um sujeito que preferiu substancialmente a observação à ação, o assistir ao atuar, o olhar, ver, escutar ao reproduzir. Se a vida é um palco, eu agachei-me a um canto, num ponto cego, no escuro, onde ninguém me pudesse ver, intuindo tudo, adivinhando falas, imaginando caminhos, cogitando fins. A solidão nunca me atrapalhou; nunca foi um mal que pesava sobre mim. Pelo contrário, a solidão, ao menos momentânea, era uma espécie de ambição. “Deixem-me só, meu Deus! Eu preciso. Chega de som nos meus ouvidos, de barulho, gritaria...”, cotidianamente pedia. E, cotidianamente, minha esposa, divina, me deixava por uma ou duas horas estático, a tv ligada, o pensamento voando tão longe e distante que eu não pensava em nada. Às vezes, ela questionava: “estás a pensar em quê?”. Minha resposta quase invariável era: “em nada”. E eu pensava, de fato, em nada. E não sabia como explicar-lhe. Como se pensa em nada? Não sei. Era como se tudo, se todos os pensamentos me escapassem, como se me encontrasse num vazio sem fim, reconfortante, gostoso, longe de incômodos, desafios, problemas ou afins. Nesse vazio, nesse “poço cognitivo”, era feliz.
Minha vida, entretanto, mudou. Esses “poços cognitivos” são agora mais frequentes, mais rotineiros, mas minha felicidade em nada se agigantou. Sou tão-somente mais solitário ainda e percebo agora que existem diferentes tipos de solidão: a solidão voluntária, a solidão involuntária e a solidão semi-voluntária. Na solidão voluntária, você está sozinho porque quer. Você prefere isso, e disso sente até, por vezes, uma premente necessidade. Eu era assim. Lembro-me que quando era criança – com três, quatro anos –amava estar sozinho no quintal ou embaixo da mesa de meu avô. Enquanto ele costurava fraques, eu alinhavava minhas infantis filosofias. Você não imagina como esses momentos me preenchiam. Deitava-me com a cabeça encostada a uma perna da mesa, uma mão levando o “biberão” à boca, a outra, enrolando os cachos do cabelo. Aqui dentro, nesta cabeça que agora engendra esta prosa, pássaros voavam sem fim. O mundo era perfeito. E era um pilar fundamental de sua perfeição a minha solidão. Meu pai conversava comigo – eu não queria conversar; minha mãe puxava conversa – eu não estava a fim; meus amigos (eu quase não tinha) me puxavam para brincar – eu brincava, corria, chutava a bola, mas “não me obriguem a falar”. Essa não-comunicação, essa introspeção e solidão eram voluntárias. Eu amava isso. E isso mesmo preservei até hoje. Todavia, como escrevera Camões, “o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”. Hoje, divido minhas horas do dia entre uma solidão involuntária e uma solidão semi-voluntária. Nada mais há de voluntário na minha solidão. Como estou permanentemente sozinho, não me deparo com qualquer opção. Eu, sozinho, não tenho como escolher estar só. Minha solidão é agora uma espécie de imposição. A vida, Deus, o que seja, fizeram isso comigo. E, um dia, os mesmos agentes farão isso com você. Na solidão involuntária, ser-lhe-á imposta a ausência do “objeto”, de um objeto que você muito quer. Essa solidão frustrá-lo-á demais, acredite, pois o obrigará ao recolhimento dos seus desejos. Você não terá mais a mãe, o pai, o tio, a irmã do seu lado, qualquer outro ente querido, e essa solidão, essa falta doer-lhe-ão de tal modo que seu mundo parecerá que se acaba. Doer-lhe-ão fisicamente, como uma lança atravessada no peito, rasgando ventrículos e aorta, como um entalo permanente que dói a cada inspirar e expirar. A ausência é física, e a dor que provoca é tão física quanto. Você perceberá, então, que tudo é belo e perfeito quando a solidão é uma escolha, mas tudo é agonizante e cruel quando ela vem contra nossa vontade. É tão agonizante, tão psicologicamente avassalador e torturante que não encontramos outra solução senão mascarar o que nos foi imposto. Por um artifício mental, a solidão involuntária, forçada, dá lugar à solidão semi-voluntária, a uma espécie de defesa que criamos que nos faz acreditar que estamos sozinhos porque queremos. Nesse momento, as qualidades do objeto que perdemos são transferidas para outro. Este outro é tão agradável e doce quanto aquele; é, como aquele, tão atraente e belo. Mas, ao contrário do primeiro, não nos merece uma verdadeira ânsia de ter. Talvez porque não suportaríamos outra solidão involuntária ou a negação de outro desejo. Talvez porque tudo não passa de um fingimento. Afinal, é muito normal e saudável termos amigos imaginários.


14 dezembro 2019

O amor: um presente


O amor é uma espécie de presente – bem embrulhado, papel vistoso, escolhido com brio – que você oferece ao outro. Depois de realmente ofertado, o que esse outro faz com ele não depende mais de você.
Alguns há que o valorizam, que se demoram em contemplações, que, em uma espécie de êxtase, uma e outra vez o admiram e se servem dele. Tão agradecidos ficam que presente de igual valor lhe retornam. E fazem-no alguns por obrigação, outros porque têm a percepção do quão é significativo serem amados, do quão é sublime e digno de amor aquele outro os amar. Amam quem os ama. Que nobre reciprocidade! Acreditam que saber amar é saber deixar alguém amá-los.
Outros há que desdenham do presente. Recebem-no com um sorriso fosco mal disfarçado. Não é aquilo que queriam e não lhes tem nem terá qualquer valor ou serventia. Você empenha todas as suas forças e energias, dá tudo de si, dá tudo que tem e não logra mais que uma tímida simpatia e camuflada comiseração. Seu presente pesa-lhes sobre os ombros. Não fossem as imposições de uma ao menos mediana educação e o jogariam no chão na hora da oferenda. Gritariam, batendo os pés: seu amor para que me serve?! Para quê? Para nada! Jogue isso fora! Leve de volta! Pegue! Esses jogá-lo-ão a um canto, onde o pó e as aranhas tomarão conta. Com o tempo (talvez muito tempo), você perceberá que seu presente foi, pura e simplesmente, mal entregue.
Entre os que valorizam o presente, há ainda aqueles que não são capazes da retribuição. O presente é bom, gostam dele, mas não o apreciam o suficiente. É bom, mas não é exatamente aquilo de que necessitam. Esses recebem-no com um ligeiro constrangimento. Sabem que não serão capazes de oferecer o mesmo. Guardam-no, intocável, com uma espécie de zelo canhestro. Eles merecem aquele presente (que bom!), mas seu presente merece alguém melhor do que aquele que lhes ofertou. Ainda chegam a lamentá-lo, “é uma pena, um presente tão bom, uma pessoa tão boa, mas que hei de fazer?”. Nada. Não fazem nada. Seu presente será para eles uma espécie de medalha.
Entre os que desdenham do seu presente, há também um tipo de gente zombeteira, trocista, para quem sua dádiva é motivo das maiores galhofas e ironias. Esses não o merecem, definitivamente, mas você não tem como reconhecê-los. E isso é assustador. Você pode estar oferecendo hoje, neste preciso momento, todo o seu amor; você pode estar se oferecendo, completa e “animamente”, e do outro lado estar, nada mais, nada menos que um receptor insensível, desumano, nojento. Esses farão graças, rirão do seu presente à socapa. Ou até abertamente.
Por último, há aqueles para quem o presente é na exata medida, aqueles para quem ele é ânsia, desejo, felicidade, realização. Esses não querem outra coisa senão o que você lhes oferece. Passavam dias admirando de longe, auscultando, interiormente se contorcendo, adestrando suas vontades. Alguns deles não tiveram sequer, durante muito tempo, coragem de verbalizar: eu quero! E eles queriam muito receber esse presente das suas mãos. Oh, como queriam! Esses não valorizam nem desdenham. Para eles, o presente é autêntico, é mágico, é um verdadeiro acontecimento. Não agradecem ou retribuem o amor que se lhes dá. Não há motivo para agradecimento ou retribuição. O que sentem está muito além disso. E não o disfarçarão seus olhos, seu riso, tampouco sua linguagem corporal.

06 dezembro 2019

Meus natais




Meus natais de antigamente eram promessas – promessas que se cumpriam. Uma hora, o Papai Noel, esperto, esguio (meu Papai Noel era obeso e esguio) deixava meu presente embaixo do pinheirinho. Eu apenas tinha que ser paciente, aguardar... Acredito que minhas ansiedades foram paridas ali; e não morreram jamais, antes cresceram. Coisa ruim tende a aumentar.
A noite de Natal era noite de espera, um desassossego vivo, e eu, meninote, era nessa noite mais inquieto que passarinho. Bicava tudo: as nozes, o amendoim, o bolo-rei, o pão de ló, a aletria... Corria para um lado e para outro, inventando motivos – mas não há motivo para ser ladino – e espiava os quatro cantos de tudo. Em um deles, quiçá?, se escondesse o velho barbudo. Ah! Um dia ainda o apanho! Não o apanhei nunca. Esse velho era meu pai, minha mãe, meus avós, minha madrinha, minhas tias... Eles é que depositavam sorrisos sobre o musgo, coloriam o presépio de alegria; eles é que cumpriam a promessa do presente, e eles, o maior presente de todos, agora sei, é que estavam lá.
Meus natais eram promessas de brilho, promessas de presente, de um qualquer brinquedo e de reunião de toda a gente. Meus natais eram puros e mágicos e divinos, fantasiosos, como tudo na vida de um menino. Jogávamos às cartas, dominó, damas... Tudo entremeado a risos e gracejos, às piadas cotidianas do ano que desfalecia e às predições do que lá vinha. Com aquele frio, havia de nevar na cidade e, com certeza, no próximo ano, muito, mas muito choveria. Talvez a vida melhorasse, os chefes fossem menos duros e rabugentos. Talvez até começassem a gostar dos seus empregos.
Anos mais tarde, eu adolescente, Papai Noel extinto, uma coisa sempre se predizia nos meus natais: no próximo verão, lá estaria minha madrinha. Bateria à porta, de surpresa, e minha avó, abrindo, soltaria um “Oh!Teresa!...” bem emotivo. Que saudades sentia da filha! Todos concordávamos. E fazíamos por instantes um completo silêncio, quebrado repentinamente por um “Vai! És tu a jogar”.
Meus natais eram assim. Meu avô, pomposo, elogiava o bacalhau, caro, grosso; parecia inchado de feliz. Minha avó, esgotada, cozinhara horas a fio, aconselhava: “bota deste azeite, é rugido”. Meus tios, todos eles, tinham nessa noite nos olhos um imensurável brilho. Eu também. Nas ruas, quando saía, todos brilhavam; o brilho dos olhos misturava-se aos pisca-pisca das luzes de Natal. E a noite, mesmo fria e cinzenta, entre o chover e o nevar, parecia saída de um conto de encantar.
Meus natais eram felizes. Os da infância, os da adolescência, os de até há um ano atrás. O último Natal foi feliz. Bebi um vinho tinto suave, esperando te aprontares. Refastelado na rede, fiz planos e mais planos, projeções... A vida há de melhorar. Há de sempre melhorar. E se não melhorar, tanto faz. O que pode melhorar? Sou tão feliz! Terminarei o mestrado, farei a prova para entrar no doutorado... E todas as noites, as noites todas, não apenas a do Natal, terão um brilhozinho especial. Quando me deitar, à noite, olharei teus olhos (duas estrelas) e ficarei a ponto de cegar. Como eu te amo!
Vieste ver-me à rede. Vestido vermelho. Esperaste meu galanteio. Linda! E sorrias... Sorrias sempre. Essa era a promessa dos meus últimos natais. Houvesse o que houvesse, tu vinhas com teu jeito feliz e depositavas em meus olhos o sorriso mais lindo que já vi. Eu estufava. Quimicamente, era completo e satisfeito. Minhas emoções implodiam, se agitavam; os poros, as células não se continham... Era todo êxtase. De um êxtase que não cabe em prosa nem em verso.
No meu próximo Natal, não farei planos. Não projetarei nada. Talvez a vida melhore. É difícil piorar. Talvez eu termine os estudos; talvez faça concurso... No próximo ano, talvez vá a Portugal. Talvez não vá. Talvez. Tanto faz. Já não sou aquele menino detetive tentando descobrir Papai Noel; tampouco o homem feliz que bebia da tua alegria. Não sou nem um nem outro. Sou um homem qualquer para quem o Natal não importa mais.

11 agosto 2019

Atualização sobre a Bruzundanga



Na Bruzundanga de Lima Barreto assoma por ora, com força, um título honorífico. Não é tão distinto quanto doutor ou bacharel, mas é, aos olhos do povo da Bruzundanga, bastante respeitável, além de que goza de uma abrangência e universalidade de que outros títulos não gozam. Para obtê-lo (ou adquiri-lo), o cidadão da Bruzundanga não dispensa quatro ou cinco anos em um bacharelado ou em um doutoramento (um desperdício de tempo!), bastando apenas o estudo da Palavra, a memorização de dois ou três salmos, entre outros requisitos facilmente preenchidos. O título honorífico de que falo é o título de “homem de bem”, cujas características passo, na medida do possível, a especificar. Recordemos as palavras de Lima Barreto: “A ‘Bruzundanga’ fornece matéria de sobra para livrar-nos, a nós do Brasil, de piores males, pois possui maiores e mais completos”.
1. Requisito precípuo, o “homem de bem” da Bruzundanga é, claro está, um homem. Às mulheres é vedada a obtenção do título por dois motivos: porque são mulheres; e porque não há “mulheres de bem”. O equivalente para o gênero feminino a tão respeitável título é “mulher do lar”. Aqui, vejo-me forçado a destacar uma singularidade: entre as mulheres, é mais dignificante, na Bruzundanga, ser uma “mulher do lar” do que ser doutora ou bacharel. A explicação para tal minha ciência ainda não foi capaz de capturar.
2. O “homem de bem” é casado, via de regra. Na prospecção que fiz, observei que nenhum homem solteiro possui o título, mas não excluo a possibilidade de se encontrar alguma exceção. Entretanto, devo dizer que o fato de todos os “homens de bem” serem casados se deva e demonstre ainda mais a respeitabilidade do título.
3. O “homem de bem” é sempre, invariavelmente, um homem empregado, inserido no mercado de trabalho. Mais do que empregado ou assalariado, o “homem de bem” da Bruzundanga é um trabalhador. Por que é que eu digo que mais do que assalariado o “homem de bem” da Bruzundanga é um trabalhador? Simples. Porque na Bruzundanga há assalariados que não justificam o salário auferido com sua força de trabalho. Isso é frequente, por exemplo, no legislativo. O que não impede que os legisladores da Bruzundanga sejam “homens de bem” (é, na Bruzundanga observam-se alguns paradoxos).
4. O “homem de bem” da Bruzundanga é um homem que paga suas contas. A menos que esse “homem de bem” seja descendente de um milionário, também “homem de bem”, que paga suas contas. Entre as classes altas, o título é uma generalidade. Em um certo sentido, a riqueza funciona como uma espécie de garantia do mesmo. Quero dizer, um homem rico é, inevitavelmente, um “homem de bem”, assim como os filhos e os filhos dos filhos desse homem rico. O título passa de geração para geração infinitamente. Sua perda poderá acontecer apenas em uma situação: em caso de perda da riqueza ou empobrecimento da família. Independentemente do cometimento de algum crime. Crimes de corrupção, por exemplo, não levam à perda do título. O “homem de bem” pode, na Bruzundanga, portanto, ser um corrupto, bastando-lhe, para a garantia do título, ser um homem de posses.
5. O “homem de bem” é cabra macho. Ninguém lhe reconhece qualquer sentimentalismo próprio do gênero feminino. Sua virilidade é, todavia, posta à prova cotidianamente. Por isso, não é de estranhar que possua e porte arma; que, ao menos uma vez no mês, pratique alguma grosseria, inclusive (e principalmente) com sua esposa; e que frequente os mais recônditos prostíbulos, onde pode dar vazão a seus instintos e alardear sua macheza. Não raras vezes, a “mulher do lar” com quem é casado (“homens de bem” vivem em união matrimonial apenas com “mulheres do lar”; não desposam outro tipo de mulher) é sabedora desta última prática, mas sua compreensão é elevada. De fato, devo dizer, a “mulher do lar” é talvez o espécime mais compreensivo da Bruzundanga. É enunciado base de sua oratória algo do tipo: “é homem... homem é fraco...”. A leveza e graciosidade dessa fala são indescritíveis. Não fosse assim e não seria uma “mulher do lar”. Um grande homem, como o são, em geral, os “homens de bem”, necessita ter uma grande companheira a seu lado.
6. O “homem de bem” da Bruzundanga é um saudosista. Queria evitar usar tais termos, mas julgo ser inevitável: o “homem de bem” da Bruzundanga é um homem do passado. Seu apego é tal às memórias de seus pais, avós, tataravós, que lhe garantem que “antes é que era bom”, que, pudesse ele regredir no tempo, já estava para lá da ditadura, desembocando mesmo na monarquia. Isto porque, entre outras coisas, o “homem de bem” da Bruzundanga reconhece a utilidade de um escravo. Muitos deles, não todos, (aqui, meu estudo ainda não chegou a números definitivos), ao refletirem sobre a monarquia da Bruzundanga, ainda terminam em uma exclamação: “acabou e funcionava na perfeição!”.
6b) É forçoso criar esta alínea. Onde leu “ditadura”, você deve ler “democracia de força”. Os “homens de bem” da Bruzundanga são democratas de força, nunca ditadores. Nem agora nem no passado.
7. O “homem de bem” da Bruzundanga é cristão, seja lá o que isso queira dizer. Minhas dificuldades de interpretação dos textos sagrados da Bruzundanga impedem-me de fazer uma observação mais detalhada. Um exemplo dessas minhas dificuldades: onde eu leio “oferecer a outra face”, eles leem “bandido bom é bandido morto”. Não sei se seria o caso de mandar ajeitar os óculos.
8. O “homem de bem” da Bruzundanga é avesso à ciência. Nietzsche dizia que as mulheres experimentavam, diante da ciência, a sensação de que lhes espreitavam para debaixo das saias. Com o “homem de bem” da Bruzundanga acontece o mesmo. A sensação é de que lhes espreitam para dentro das calças. Vá-se lá saber o que eles tanto querem esconder!

[Em atualização]

19 agosto 2018

Que loucura!

José era apaixonado pela esposa. Completamente, dizem. E por amor fazia qualquer loucura.

- Amor, você faria tudo por mim?
- Tudo! Tudinho, querida...

Ela tossiu.

- Sério?
- Claro! O que é que eu não faria por você?

Seguiu-se um breve silêncio. Ela afagou o peito dele.

- Sei lá... Não sei se devo falar.
- O quê? Fale!

Ela hesitou um pouco.

- Eu acho que estou gostando mais de mulher...

O mundo dele podia ter acabado ali. Não acabou. Fazia qualquer loucura.

- Você está querendo que eu?...
- Não, não... Mas se você quiser...Eu quero que você queira. Não quero que faça só por mim.

José fez. Por que não? Os amigos disseram que podia se arrepender, que não era algo fácil de decidir, que talvez estivesse na hora de deixar Manuela pra lá... Mas os amigos erravam o mais das vezes.

- Oi.
- Oi.
- Nossa, José!
- Josefa. - corrigiu.
- Como você ficou diferente!
- Gostou?

A resposta não foi imediata. Ela ajeitou-se na cadeira, olhou "Josefa" de alto a baixo...

- Gostei...
- Nossa! Esse "gostei" não foi nada convincente, não.
- Gostei. Que mais quer que eu diga?
- Podia elogiar meu batom, falar do meu salto, dizer como meu peito tá tão durinho, bonitinho...
- Ah! Sei lá, José...
- Josefa.
- Sei lá... Não estou acostumada... Desculpa... Não sei o que falar.

Manuela era volúvel. Incerta. Variável. Sofria de uma ligeira (?) bipolaridade.

- Sabe o que é, José?
- Josefa, porra!
- Sabe o que é, Josefa? Não estou conseguindo abstrair, não. Estou sempre lembrando quem você era... Não estou conseguindo... E...
- E o quê?
- Acho que eu estava enganada... Acho que eu preferia você do jeito que você era. Eu não disse sempre que gostava de você do jeito que você era? Não disse? Pra que é que você foi fazer isso?

Brigaram. Manuela descobriu que gostava de José e odiava Josefa. Josefa descobriu que não queria mais ser José. Que loucura!


16 novembro 2014

Domingo

           É domingo. Dia lindo! Manhã cedo tem a missa. Minha ligação ao divino. Vejo os amigos, descansados, bem vestidos. João José comprou fraque, azul escuro, corte fino. Gravata listrada, nó apertadinho. Cuidado, João, com esse arrocho das goelas. Transpira suíno. O calor nordestino não ajuda, né, meu filho? Imagino... É o estilo de Dona Carminda. Tião Tim veio de bicicleta. Nova. Quer dizer, semi-nova. Vi um rasgozinho na cobertura do selim. Ganhou de seu primo. Por serviços prestados, disse. Sei... Não, não é viado o pobre Tim Tim. É mentiroso, só isso. Coisa de família. O pai dele é Seu Leandro Promessa. Conhecido. Nenhuma dá por cumprida. Mas não condeno. Isso julgará o altíssimo. Ah, estava esquecendo... Pedro comprou carro novo. 5 portas. 1600 de cilindrada. 0 aos 100 em 7 segundos. Uma pena. Pra ele servia um jumento. Pede licença para tudo. Vou dobrar, amigo. Dá sinal uns trinta metros antes. Arranha a marcha. Difícil passar de terceira, quanto mais uma quarta. Eu rio. Escondido, claro. Hoje em dia as pessoas são muito sensíveis. Qualquer coisa se aborrecem. O mundo está perdido.
Daqui vou para casa. Meus vizinhos já devem ter iniciado o set. Prevejo funk ostentação misturado a um brega rasgado. Decibéis alegres, inconformados. A música é assim: odeia limites. Minha mulher luta com um frango assado. Morto, continua dando luta. Eu farei um outro workshop rápido. É um hábito sadio, ensinar o que não sei bem. Disfarço. E um dia aprendo. Para ela fica ótimo. Só eu sei que aquele corte das coxas não é lá muito profissional. Deixo a pobre da galinha meio desfigurada. Arraso suas ancas.
A família toda virá hoje. É domingo. Meu pai colocará mil e um defeitos na construção da casa. Olha como eles assentaram esse azulejo! Eu aceno a cabeça. Verdade. Esses quadrados deveriam encaixar uns nos outros, de tal forma que de todas as vezes fossem quadrados, não umas meias pontas de estrelas perdidas no chão de minha casa. Sacanagem! Odeio pensar que paguei por um serviço porco.
Fico aborrecido. Carlinha, minha filha, na correria com os primos rasga a cabeça. Dá vontade de costurar aqui mesmo. Não. Chamarei um táxi. “Pede a Pedro, Carlos. É mais rápido. E ele é tão teu amigo”, aconselham. Pede a Pedro. Eu não. Mas alguém faz o pedido. Pedro chega à minha casa pouco depois. Eu odeio. Odeio quando necessito. Ai, o que se passa por causa de um filho.
No hospital, falta atendimento. A menina não vai morrer, eu sei, mas está sofrendo. E os gemidos dela e da mãe empenam meus ouvidos. A cara pseudo-serviçal de Pedro não ajuda.
É domingo. Dia lindo! Chego a casa já noite. Requento o que sobrou do frango assado. “Amor, coloque o despertador para as 5 horas. Não esqueça que amanhã é segunda. E esta semana é você que leva Carlinha na escola.”
Enfim...

          

26 julho 2014

Vem!


        O mundo todo me convence. Tenta convencer. De quê? Ora, de quê! De tudo. Olhe os outdoors publicitários, os discursos, as pichações nos muros das ruas, as religiões, as doutrinas filosóficas, a historiografia. O colono versus o anti-colonialista, o anti-semita e o sionista, o católico, o evangélico, o espírita. O islâmico e o budista. "Vem!" São certos e seguros.
        A palavra é o que de mais poderoso têm as humanas gentes. Pela palavra o homem se excede. Não se basta. Pela palavra logra fazer a cabeça de outro alguém. Está certo. É sua convicção primeira.
        Hoje mesmo meu intento é convencê-lo, a si, leitor: essa coisa é um erro. O homem mais feliz do mundo não tem tal preocupação.
        Citando José Régio: "Quando me dizem: "vem por aqui!" / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) / E cruzo os braços, / E nunca vou por ali..."


21 julho 2014

O meu mundo e o deles


Essa coisa dos mundos é curiosa. A definição de mundo é curiosa. As pessoas têm diferentes definições de mundo. Se pedirmos a trocentos indivíduos que definam “mundo”, aposto que ouviremos umas trocentas perspectivas diferentes. Nós somos diferentes. A única constante é que nessas centenas de definições virão acoplados, invariavelmente, uns e outros pronomes possessivos. Dizemos “o meu mundo”, o “nosso”, o “deles”… Quer dizer, o “deles” pouco importa. E talvez por isso quase nunca o mencionamos. No máximo, sentimos uma ligeira curiosidade. Afinal, é deles. À sua imagem e semelhança.
 Já entendeu? Vivemos em mundos dentro de mundos que cabem num mundo maior que é o nosso planeta. Cada um de nós tem um mundo ou vários mundos. Eu tenho vários. Por exemplo, um dos meus mundos é meu quarto, e ai de quem se atreva a violar-lhe o espaço! É meu, e ponto final. Outro mundo meu é o que mantenho com meus amigos. Poucos, mas que riem das mesmas besteiras que eu. De tal forma que só nós nos entendemos. E quando alguém quer entrar no nosso mundo - um estranho - ficamos alerta, jogamos à defesa… Para que entrar mais alguém nesse mundo que tão carinhosa e sabiamente idealizamos? Para quê? Por que há de minha mãe- uma perfeita intrusa, que só por acaso lava minhas roupas e cozinha meu almoço- entrar nesse mundo perfeito que é o meu quarto?
No fundo, nossos mundos são idealizações que fazemos. E por isso, neles só entra quem nós queremos, deles só faz parte quem bem nos apetece.
Também por isso, vemos a classe alta brasileira reclamar, sentida com o frequentar dos aeroportos, teatros, restaurantes, antes só frequentados por eles, antes seus únicos e exclusivos mundos, pelas classes mais baixas. O problema maior nem sei se será os ricos terem mundos só deles, baseados nos seus anseios e possibilidades. Eu tenho meus mundos. Você tem os seus mundos.
O problema maior é quando seu mundo choca com o mundo dos outros. O problema maior é quando, do que é de todos, você pretende fazer um mundo só seu. O problema maior é você achar ter o direito de banir de um espaço público alguém que você julga estar invadindo seu mundo. O problema maior, o maior de todos, é ter-se permitido, de alguma forma, que alguém, no “nosso” mundo, pensasse assim.
Mas eu não sou a melhor pessoa para falar disso. Odeio quando meu pai - que só por mero acaso paga minhas contas e minhas roupas - usa meu toca-discos. 


20 julho 2014

O meu gol



Meu tabuleiro de jogo não é um tabuleiro quadrilátero, de casas brancas e negras, onde peões e cavalos se digladiam. Meu tabuleiro de jogo tem cento e dez metros por setenta e cinco metros, e é dividido no meio por uma linha paralela às linhas de fundo. No meio tem também uma circunferência, e nas extremidades duas traves, uma de cada lado, com cerca de dois metros e meio de altura por sete metros e meio de largura, e o dado… Espere, uma bola faz a vez de dado, e nos joga e lança segundo sua sorte, segundo a imprevisibilidade de seus movimentos.
Nós somos onze de cada lado. Soldados, lutadores. Às vezes casados contra solteiros, às vezes nações contra nações. E o nosso êxtase, verdadeiro, infantil, é colocar a bola na rede, escutar o grito de gol, que nem precisa vir das bancadas. Precisa, e vem, de dentro de nós mesmos: “Eu fiz gol! Eu fiz gol!”.
Vibramos, de forma tão intensa, de uma felicidade tão genuína, que fica difícil para um estranho, imagine um E.T., acreditar que tal se deva a uma bola no gol, a um acerto na rede depois de um drible no goleiro, depois de um chute de placa, depois de um chute que pegou na veia, depois de um sem-pulo…
O E.T. não compreenderia. Aliás, nem nós compreendemos. E não compreendemos porque não tem o que compreender. A paixão não se compreende, não se dá a entender. Como entender minha ânsia de menino de fazer um gol no Maradona- um rapaz insolente da minha rua, que vivia fazendo bullying comigo? Como entender o caráter decisivo no meu bem-estar, na minha alegria, que tinha converter esse penalty diante do Maradona? Como entender que esse penalty era para mim tão decisivo quanto o de uma final? Como?
Não sei. Ninguém sabe. Mas muitos experimentam-no. Os jogadores, profissionais ou amadores. Imagino que sintam o mesmo que eu: a visão turva da adrenalina, o peso do mundo, uma vontade, um desejo possante, por vezes furioso… O mesmo que eu sentia numa manhã dos anos noventa, grama molhada, sol pertinente, o Maradona trocista embaixo do gol. Imagino que o mesmo que eu quando corri para a bola, bati, e ela, caprichosa, bateu no pé da trave… E entrou… A bola entrou! Imagino que o mesmo que eu quando fiz gol no Maradona. O meu gol.
Estou sentado no Mineirão. Brasileiros e chilenos preparam-se para bater os penaltys pelas oitavas. Sei que as emoções são universais. Todo mundo sente alegria, prazer, ansiedade… E eu espero que o Júlio César não seja para nenhum chileno o meu Maradona.